O Cristão e a Cultura

por: Carlos Renato de Lima Brito

Recentemente vi um filme bem interessante. Um filme antigo cujo título é “A Festa de Babette”. Este filme conta uma história ambientada na fria Juntlândia, uma região da Dinamarca, nos países escandinavos. As duas personagens principais do filme são as irmãs Filipa e Martina. Foram chamadas assim por causa dos dois grandes reformadores alemães Martinho Lutero e Filipe Melanchton. O pai delas fundou a própria Igreja. Era muito estimado entre os habitantes daquela cidade distante de toda a influência do mundo civilizado. Todos da cidade testemunhavam de como aquele santo homem conduziu todos a uma transformação de vida e não podiam imaginar sua existência sem a presença espiritual marcante do pastor.

As irmãs Filipa e Martina nunca se casaram, apesar de terem tido muitas oportunidades para isso. Eram na juventude muito bonitas e talentosas. Uma delas tinha uma voz angelical. Quando um famoso cantor da ópera de Paris visitou a rupestre cidade, certa vez, ofereceu-se para dar aulas ao prospecto talento. Descobriu o professor nas aulas que aquela moça poderia se tornar uma famosíssima Diva, ter grande sucesso, se se mudasse para Paris e pusesse em desenvolvimento seu visível potencial. O cantor também estava grandemente apaixonado. A moça, porém, e não por uma ordem do seu pai, desistiu das aulas quando soube de intenções de estrelado que seu professor tinha.

A outra irmã, por sua vez, teve oportunidade de se casar com um soldado que tinha todas as condições de se tornar um grande general. Ele estava caído de amores por ela. Esta irmã também rejeitou sua proposta de casamento, porque não tinha as mesmas ambições do seu pretendente.

Agora, as duas irmãs, já idosas e sem a presença de seu pai e pastor, viviam com seus escassos rendimentos, tirando desses, com muita dificuldade, alguma sobra para alimentarem e vestirem os pobres da cinzenta e congelada cidade.

As vidas daquelas pobres e luteranas senhoras são balançadas pela presença da misteriosa Babette. Babette é francesa, está fugindo de Paris porque, numa terrível repressão política, procuram tirar a vida de Babette. Ela vem se refugiar na casa daquelas senhoras e torna-se sua criada sem cobrar nada em troca a não ser abrigo e alimento. As senhoras nem podem alimentar mais uma boca, mas descobrem em Babette uma mulher muito esperta, que aprende o dinamarquês com muita presteza, que sabe fazer o dinheiro render e é uma excelente cozinheira.

Quando tudo parecia estar estabelecido, Babette recebe uma surpreendente correspondência. Ela ganhou 10.000 francos na loteria em que ela jogava todos os meses, sendo esta a sua única ligação coma França. Babette pode então fazer sua vida em outro lugar e não mais viver como uma criada de duas senhoras que aprenderam a viver com extrema simplicidade, com o essencial, com poucos prazeres, dedicadas inteiramente à caridade e à religião, apesar de terem tido, no passado, grandes oportunidades de desfrutarem legitimamente do mundo lá fora.

Para presentear as irmãs pietistas, Babette resolve patrocinar o jantar de comemoração do centésimo do falecido pastor. Ela pede às duas irmãs que o jantar não seja aquela sopa sem gosto, aquele pão dormido, acompanhado de um copo d’água, que os religiosos costumavam comer em suas reuniões. Ela pede que seja servido um autêntico jantar francês, como nos grandes restaurantes de Paris. Apesar da relutância das duas irmãs, elas permitem que Babette realize seu jantar, o que é realizado com grande primor e maestria. Babette era uma grande cozinheira.

O grupo religioso toma, entretanto, uma decisão muito radical: como era uma festa em lembrança ao que o grande pastor havia feito pela cidade, eles decidem jamais fazer qualquer elogio à comida, decidem não se resignarem a sentir prazer no sabor de qualquer petisco, e decidem falar durante o jantar apenas do pastor e a dirigir todas as suas conversas a uma abordagem religiosa. É interessante ver todos aqueles homens e mulheres comerem as comidas mais raras, mais caras, preparadas por uma das maiores cozinheiras do seu tempo, sem fazerem qualquer elogio a esta comida, tentando inibir sua expressão de contentamento com os finos manjares que eles colocavam a boca, apenas soltando interjeições hipócritas àquilo que o pastor havia feito, destacando sua experiência religiosa, vazia de significado e contexto que acontecera há muitos anos atrás.

Esta história nos mostra muito bem como a fé, a religião e as Escrituras podem se relacionar com a cultura em geral. O pastor permite que sua filha estude canto com um cantor profissional, mas a filha acredita que se tornar uma cantora profissional seria desviar-se da fé. As pessoas daquela cidade gostam das comidas que Babette prepara para eles comerem, mas acreditam que elogiar aquela comida é desvirtuar sua fé e cometer uma injúria ao homem que os guiou ao evangelho. As pessoas daquela cidade tomaram uma posição em relação ao mundo que os cercava. Elas decidiram se isolar ao máximo. Decidiram que se envolver diretamente com as artes, com a guerra, com a culinária e com a cultura em geral era um erro a ser evitado.

O relacionamento entre a o cristão e a Cultura Contemporânea é um relacionamento difícil de definir e, por isso, se torna polêmico. Até que ponto um cristão pode se envolver com a cultura em geral? Um cristão contemporâneo pode, por exemplo, fazer um curso universitário? Mais especificamente, um cristão pode fazer um curso de música numa faculdade, onde aprenderá as músicas de Villa-Lobos, Ernesto Nazaré e Luis Gonzaga? Um cristão pode ler um livro de Érico Veríssimo, Machado de Assis ou até Paulo Coelho? Um cristão pode fazer um curso de Psicologia? Um cristão pode ver uma peça de Teatro ou assistir a um concerto de música clássica?

Estas são algumas das perguntas feitas na área do relacionamento entre o cristão e a cultura que têm grande necessidade de serem respondidas de modo bíblico, crítico, sensato e objetivo. Para falar deste assunto, vamos procurar responder as seguintes questões:

  1. O que é cultura?
  2. Que posicionamentos têm se levantado a respeito do relacionamento entre o cristão e a cultura?
  3. O que as Escrituras dizem sobre o assunto?
  4. Que conclusões nós podemos das informações bíblicas?

Vamos para a primeira e mais essencial pergunta: O que é a cultura afinal? Quando usamos o termo cultura, o que nós queremos dizer com isso?

1) O que é cultura?

a) Michael S. Horton, autor do livro “O cristão e a cultura”, afirma que utiliza o termo cultura de um modo abrangente. O escritor utiliza o termo abrangendo tanto a cultura popular como a alta cultura. Ele define a cultura assim:

“Uma definição útil e abrangente de ‘cultura’ para a nossa discussão pode ser ‘a atividade humana que intenciona o uso, o prazer e enriquecimento da sociedade'”.[1]

b) A cultura representa toda a produção de conhecimento humano nas áreas da arte, ciência, literatura, música, filosofia, política, economia e religião. A cultura resume todos os costumes ligados à família, à nacionalidade, ao trabalho e ao modo do ser humano encarar a vida. Apesar do homem ter condições de transpor as barreiras da sua própria cultura, a cultura acaba definindo em grande parte quem o homem é, definindo seus valores estéticos, éticos e sociais.

c) Há na nossa cultura o conteúdo de uma produção mais especializada, mais tradicional e mais requintada, que se evidencia nas obras dos grandes autores da História da Cultura Ocidental. Alguns exemplos deste aspecto da cultura, conhecido como Alta Cultura, nas suas respectivas áreas de conhecimento, seria:

i) Na Música, Monteverdi, Vivaldi, Handel, Bach, Mozart, Beethoven, Schubert, Berlioz, Brahms, Wagner, Debussy, Stravinsky, Schönberg e Villa-Lobos.

ii) Na pintura, Giotto, Rafael, Da Vinci, Miquelângelo, Rembrandt, Rubens, Monet, Picasso e Portinari.

iii) Na Literatura, Homero, Virgílio, Dante, Camões, Milton, Victor Hugo, Dostoiévisky, Baudelaire, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Tolkien e Graciliano Ramos.

iv) Na Ciência, Copérnico, Galileu Galilei, Descartes, Isaac Newton, Pasteur, Curie e Einstein.

d) Há na cultura o conteúdo de uma produção mais intuitiva, produzida por pessoas que não se alinharam completamente com uma tradição oficializada pelas elites intelectuais, mas que revela com mais realidade os costumes e os valores das massas populares. Esse conteúdo tem sido rotulado de Cultura Popular. Alguns exemplos dessas produções culturais são a Literatura de Cordel, o artesanato, a música popular, os cantos folclóricos, as lendas, os remédios caseiros, etc.

e) Esta diferenciação de Alta Cultura e Cultura Popular não significa uma graduação de qualidade nem uma falta de interação entre as duas culturas. Por vezes, a Cultura Popular apresenta uma maior qualidade do que a Alta Cultura. Também se pode verificar que a Alta Cultura busca subsídio na Cultura Popular para produção do seu conhecimento.

f) Resumindo: Cultura é a atividade humana que intenciona o uso, o prazer e o desenvolvimento da raça humana. Usaremos o termo Cultura mais no sentido da Alta Cultura sem querer desprezar a Cultura Popular, por acharmos que esta parte da Cultura é mais relevante para o nosso trabalho.

g) Tendo definido assim, o que queremos dize pelo termo “Cultura”, chegamos a segunda parte do nosso estudo. A pergunta agora é…

2) Que posicionamentos têm se levantado a respeito do relacionamento entre o cristão e a cultura?

Horton utiliza a lista de posições exposta por H. Richard Niebuhr no livro Christ and Culture, publicado em 1951. Ele alista cinco posições diferentes acerca do relacionamento entre o cristão e a cultura: Cristo contra a cultura, o Cristo da cultura, Cristo acima da cultura, Cristo e a cultura em paradoxo e Cristo transformador da cultura. Vejamos brevemente que cada uma dessas posições quer dizer.[2]

a) Cristo contra a cultura

Os proponentes desta posição afirmam que o cristão não deve viver sobre a influência da cultura em geral. Este mundo está contaminado pelo pecado e é governado por Satanás. Tudo que a cultura deste mundo produz deve ser considerado mundanismo para o crente. Portanto, o crente deve de algum modo viver alheio a cultura deste mundo.

O primeiro a expressar uma posição parecida foi Tertuliano (c.160-220). Tornou-se famosa a sua afirmação: “O que tem Atenas a ver com Jerusalém?”. Marques fala de Tertuliano e cita-o em sua monografia: [3]

“Embora tenha sido educado na cultura greco-romana, ele parecia não nutrir muita simpatia por ela, em especial, pela filosofia grega. O dito que o celebrizou credo quia absurdum (creio porque é absurdo) parece ser uma prova disso”.

Tertuliano expressou de modo vivido seu repúdio a filosofia de Aristóteles:

“Ó miserável Aristóteles! Que lhes proporcionastes a dialética, este artífice hábil para construir e destruir, esse versátil camaleão que se disfarça nas sentenças, se faz violento nas conjecturas, duro nos argumentos, que fomenta contendas, molesta a si mesmo, sempre colocando problemas antes mesmo de nada resolver.” [4]

Este exímio apologista estava indo contra a tendência de sintetizar o conhecimento filosófico com o evangelho. Seu conhecimento cultural, no entanto, é notável. Apesar de ser considerado um fideísta autêntico, Tertuliano não sustenta sua posição sem possuir um amplo conhecimento cultura e daqueles a quem criticava.

Os anabatistas também não concordavam com um relacionamento amigável entre o cristão e a cultura. Eles declararam que todos aqueles que não se uniram a Deus eram filhos de Belial de quem todos os filhos de Deus deveriam se separar completamente. Os anabatistas se recusavam a obedecer aos deveres cívicos e evitavam freqüentar lugares públicos.

Para Kuyper o próprio catolicismo pode ter, em certas ações, uma posição que se contrapõe ao relacionamento entre Cristo e a cultura. Ora o catolicismo abraçava em seu domínio toda a produção cultural ungindo-a e sujeitando-a, ora o catolicismo proclamava herética toda produção cultural que não tivesse a sua legítima bênção. Assim, ou os príncipes católicos deveriam conquistar novas terras ou os religiosos deveriam se refugiar em monastérios para fugir da realidade em que a cultura vivia. [5]

b) O Cristo da cultura

Nessa posição Cristo é remodelado ou deturpado de sua personalidade original para atender as expectativas do intelectual moderno. O Filho de Deus que veio ao mundo é visto mais como “poeta, moralista ou filósofo do moralismo alemão”.[6] Está presente na expressão “Deus é brasileiro”, que quer dizer, “Deus é a minha imagem e semelhança, Ele tem as mesmas nuances culturais que eu tenho e, por isso, não irá me condenar pelo que sou”. Nesta posição, não há, na verdade, um relacionamento entre o cristianismo bíblico e a cultura, mas uma sobreposição da cultura anulando o cristianismo.

c) Cristo acima da cultura

Esta posição vê a questão de um modo mais vertical. Pensa mais em termos de Deus e o homem do que entre Cristo e a cultura. Não há tentativa de negar a cultura ou de anular o cristianismo pela assimilação completa da cultura. O que se tenta aqui é sintetizar Cristo e a cultura. O principal proponente desta posição é Tomás de Aquino.

d) Cristo e a cultura em paradoxo

Esta posição sustenta que não existe maneira de sintetizar o Cristianismo e a Cultura, porque estas duas forças estão em esferas diferentes da vida do ser humano. O Cristianismo está na esfera da religião e a Cultura está na esfera dos conhecimentos estéticos, morais e intelectuais. “Nenhuma esfera deverá reger a outra, e nem atacar a outra. São simplesmente esferas diferentes de atuação com propósitos diferentes”. [7]

O Calvinismo tem sido avaliado por Kuyper como o principal sistema de vida que proclama esta verdade. O Calvinismo, entendido aqui por todo o conjunto de idéias da reforma que tiveram impacto sobre toda a humanidade, proclama que o homem é pecador e que este mundo foi corrompido completamente pelo pecado. Qualquer luz no meio dessas densas trevas é um sinal da graça de Deus. O Senhor concedeu uma graça a todos os homens manifesta em sua criação. É esta graça que faz com as sinfonias sejam compostas, as descobertas científicas aconteçam, os livros sejam escritos e haja superprodução de soja em nossas lavouras. Todos os homens são banhados por esta graça e ela os capacita a exercerem sua vocação de domínio sobre tudo aquilo que Deus criou. A cultura faz parte desta graça, não devendo ser encarada como algo inerentemente mal, mas contaminado pelo pecado e guiado pelas mãos soberanas do Criador. Esta graça comum não é salvífica, mas é representada pelo sol que se levanta sobre justos e injustos.

A religião cristã faz parte de um outro tipo de graça, a graça redentiva. Desta, participam apenas os cristãos. Ela é que capacita o crente a exercer seu dom espiritual na Igreja e faz com que todo ser humano que dela participa tenha mais condições de exercer sua vocação na criação de modo mais sábio e consciente. É esta graça que gera a religião que nos dá condições de termos um verdadeiro relacionamento com Deus, que permeará todas as esferas da vida, mas que não servirá as outras esferas, para não diminuir as outras esferas nem diminuir a religião em si mesma. A religião da graça redentiva não deverá servir a arte da graça comum para que não se tenha uma religião falsa e uma arte de segunda. Cada esfera da vida cresce como uma planta independente arraigada sobre a terra do nosso ser, sendo a religião, de todas, a esfera mais influente.

Se a cultura é produto da graça de Deus, não há necessidade de considerarmos qualquer conhecimento produzido fora da área de influência do Cristianismo como sendo algo mau a priori. Em suas Institutas, Calvino falando da justiça de muitas leis feitas por homens escreveu:

“Não há razão pela qual nós devamos desaprovar quaisquer leis estruturadas sobre essa regra [lei da consciência], dirigidas para esse alvo, limitadas por essa fronteira, por mais que difiram das leis judaicas (leis civis do Antigo Testamento), ou entre si mesmas”.

Todos os conhecimentos podem ser pesquisados e avaliados diante da Palavra de Deus. Aqueles conhecimentos que não se demonstrarem verdadeiros e autênticos diante do teste da Palavra serão refutados e encarados como falsos. Era este o método de grandes pensadores cristãos, especialmente dos reformadores. Lutero e Calvino, que possuíam um conhecimento cultural enciclopédico, citavam os grandes pensadores de sua época, avaliando o que de seus escritos era correto e o que era errado, à luz das verdades eternas das Sagradas Letras. De acordo com Horner, “estudar e interagir com a cultura não corrompe necessariamente uma pessoa. De fato, ela deveria tornar tal pessoa mais forte, como fez com Calvino”. [8] Tudo, porém, deve ser aprendido com discernimento.

e) Cristo, o transformador da cultura

Esta posição sustenta que os cristãos devem ser agentes transformadores da sociedade. Os cristãos desta linha querem ir além do seu papel de evangelizar os perdidos, querem mudar as circunstâncias em que vivem, crendo que a cultura está de um modo como não deveria ser. Teologicamente, esta posição enfatiza o fato de que Deus criou todas as coisas, sendo o universo bom essencialmente. O problema do mal no mundo dá-se ao fato de que o mundo está caído e as criaturas pessoais estão em franca oposição a Deus. Este mundo, porém, aguarda a sua redenção. Os cristãos, que fazem parte da criação redimida, podem ser um instrumento nas mãos de Deus para melhoria do mundo atual.

f) Já vimos que cultura é a atividade humana que se propõe ao uso, ao prazer e ao desenvolvimento da raça humana. A cultura abrange nossos costumes, nossa arte, nossa ciência, nossa política e nossa ética. Há cinco posições acerca do relacionamento entre o cristão e a cultura: Cristo contra a cultura, o Cristo da cultura, Cristo acima da cultura, Cristo em paradoxo com a cultura e Cristo transformador da cultura. Estas posições são apresentadas de diversas maneiras em exemplos de pensadores cristãos e atitudes de pessoas influentes dentro da História da Cristandade. Vejamos agora o que as Escrituras dizem a respeito do relacionamento entre o crente e a cultura. Vamos para a terceira pergunta:

3) O que a Bíblia diz a respeito do assunto?

a) As Escrituras afirmam que, quando a cultura contradiz a verdade revelada, a cultura deve ser relegada e combatida.

i) Os costumes dos povos deveriam ser rejeitados pelos israelitas porque estavam ligados a uma religião idólatra e cruel (Levítico 18:24-29). Estes costumes incluíam práticas que abrangiam as diversas áreas da vida cultura como a família, a vestimenta, a religião, a arquitetura, direito, etc. Em certas situações toda a cultura de um povo deveria ser completamente destruída (Deuteronômio 25:17-19; I Samuel 15:2-3).

ii) Os filhos de Israel tinham deveriam cumprir o mandamento de não cortar o cabelo em redondo, nem danificar as extremidades da barba (Levítico 19:27). É provável que aquele costume cultural identificava a pessoa com o paganismo. No versículo seguinte é ordenado aos israelitas não ferirem a carne pelos mortos nem fazerem nenhuma marca no corpo (Levítico 19:28).

b) Por outro lado, quando a cultura grifa uma verdade eterna, este costume cultural deve ser cumprido com a autoridade do princípio eterno.

i) Paulo impôs costumes culturais ligados a aparência, para que, durante os cultos, a autoridade do homem do homem sobre a mulher fosse esclarecida (I Coríntios 11:1-16, especialmente 11:3-6).

ii) Creio que o uso do véu pode ser caracterizado como cultural e, portanto, temporário, porque há na Bíblia o mandamento do homem deixar o cabelo crescer em uma outra situação e em uma outra cultura no caso do nazireus (Números 6:5). Também há uma passagem que ordena que mulheres, em certas condições, deveriam rapar a cabeça, no caso de escravas que se tornariam esposas na dinâmica da guerra (Deuteronômio 21:10-13).

iii) O costume cultural da mulher usar véu em lugares sagrados enquanto homens deveriam permanecer com a cabeça descoberta foi utilizado como uma forma vívida de demonstrar o princípio eterno da submissão da mulher ao homem e da diferença atemporal entre os sexos.

iv) Quando o costume cultural grifa a verdade bíblica, o costume deve ser preservado e seguido, deixando claro qual princípio eterno este costume representa.

c) Além disso, as Escrituras esclarecem que todo o Universo foi criado por Deus e que por isso a criação é um reflexo da natureza divina, mas que este universo foi maculado pelo pecado.

i) Deus criou todas as coisas e avaliou toda sua criação como muito boa (Gênesis 1:31).

(1) A criação é um reflexo da natureza divina (Salmos 19:1; Romanos 1:20).

(2) Se Deus é bom, toda a criação é essencialmente boa. A glória de Deus está na criação e seus atributos invisíveis são manifestos nela; por isso, a criação é gloriosa e boa.

ii) Deus criou o homem a sua imagem e semelhança e concedeu ao homem domínio sobre tudo que existe na terra (Gênesis 1:26-28). Deus também dotou o homem de qualidades superiores a das demais criaturas deste mundo, para poder exercer aquele domínio (Salmos 8:3-8).

iii) Esta imagem não foi perdida pelo homem e depois da queda continuou sendo transmitida para as gerações futuras (Gênesis 5:1-3).

iv) Torna-se, portanto, essencialmente possível o homem realizar, à parte da revelação especial algo de bom, porque a criação é essencialmente boa e o homem é capacitado para fazer o bem.

v) Apesar disso, a criação e o homem foram manchados pelo pecado. O homem desobedeceu a Deus e toda a criação passou a sofrer com a maldição que caiu sobre ela em decorrência desta desobediência. O pecado contaminou o homem todo e todos os homens estão contaminados pelo pecado, fazendo com que o homem seja incapaz de realizar qualquer ato de pura justiça diante de Deus (Romanos 3:9-18).

vi) Desta última afirmação surge o questionamento:

(1) Como o homem não pode fazer nada de bom e ainda assim parece que o homem é capaz de fazer coisas boas?

(2) Fornecer um copo d’água ao sedento é um ato de bondade. Como o homem totalmente pecador pode fazer um ato de tanta lisura e cordialidade?

vii) Deste questionamento alcançamos a quinta afirmação das Escrituras.

d) As Escrituras nos mostram que Deus dispensou a todo ser humano uma graça comum que permite que o homem realize coisas boas e conheça a verdade, apesar de estar totalmente contaminado pelo pecado (Mateus 5:45; Atos 14:15-17).

e) As Escrituras relatam exemplos de pessoas que conheciam muito bem a cultura da sua época, mas que permaneceram fiéis a Deus e foram muito importantes na História da Salvação.

i) José do Egito

(1) Era um hebreu de uma família que tinha uma aliança com Deus, selada pela fé, passada de geração em geração.

(2) Foi vendido por seus irmãos como escravo para uma caravana de ismaelitas que rumou numa rota comercial para o Egito. Tornou-se escravo do comandante da guarda do Faraó, o homem mais poderoso do seu tempo. Por conta de uma mentira foi preso, mas de prisão Deus o colocou como segundo homem do Egito.

(3) A influência da cultura na vida de José é notada no seguinte:

(a) José tinha um bom conhecimento econômico e administrativo e demonstrou isso por saber exatamente o que deveria ser feito para contornar os sete anos de escassez no Egito (Gênesis 41:33-44, especialmente 41:38-40).

(b) O aprendizado e domínio da língua egípcia. Ele se dirigiu primeiramente aos seus irmãos através de um tradutor (Gênesis 42:23).

(c) Seguindo a prática cultural dos egípcios, José ordenou que o corpo do seu pai fosse embalsamado para ser levado a Canaã (Gênesis 50:1-3).

(i) Este embalsamamento é emblemático, porque está ligado ao cumprimento da promessa da aliança que Deus fizera com aquela família.

(ii) Jacó queria ser sepultado no lugar onde seu pai fora sepultado, porque aquela família de peregrinos um dia receberia a sua herança do Senhor, tendo o sepultamento naquela herança um cumprimento parcial daquilo que Deus um dia faria plenamente.

(iii) O embalsamento proporcionava a conservação do corpo necessária para poder enterrar o corpo do patriarca na terra que Deus lhe tinha dado por herança imarcescível.

ii) Daniel

(1) Daniel também foi tirado do seu lar pela terrível conquista na nação de Judá pelo poderoso império babilônico, liderado por Nabucodonozor.

(2) De acordo com o decreto daquele rei pagão, deveriam ser trazidos jovens para serem eunucos na corte do rei que tivessem as seguintes qualificações:

(a) De linhagem e da nobreza;

(b) Sem nenhum defeito e de boa aparência;

(c) Instruídos em sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento;

(d) Capazes de assistirem no palácio do rei.

(3) A estes jovens, além desta exigência prévia de cultura, deveriam ser ensinadas “a cultura e a língua dos caldeus”, a cultura da nação pagã e inimiga.

(a) É provável que a palavra traduzida pela nossa palavra “cultura” no capítulo 1 de Daniel signifique a cultura escrita ou a literatura dos caldeus.

(b) Esta palavra foi traduzida pela palavra livro na maioria das vezes em que ocorre no Antigo Testamento.

(4) Daniel e seus amigos foram dotados por Deus com o conhecimento e a prudência em toda literatura e sabedoria (Daniel 1:17).

(a) Isto quer dizer que ele tinha conteúdo cultural e sabia usar aquele conhecimento com equilíbrio e sabedoria.

(b) Lembramos que aquela cultura incluía também os escritos dos caldeus.

(5) Nabucodonozor, que era um homem notável, achou-os 10 vezes mais doutos que seus adivinhadores e astrólogos, conhecidos no mundo antigo pelo seu conhecimento (Daniel 1:20).

(6) Apesar deste conhecimento cultural, Daniel não permitiu que o conhecimento da literatura e da língua dos caldeus abalasse sua fé. Daniel não compartilhou da mesma culinária dos caldeus por motivos óbvios: os caldeus não seguiam as restrições alimentares que os judeus seguiam como um sinal da aliança que tinham com Deus e ofereciam sua comida aos deuses que haviam seduzido o povo de Israel (Daniel 1:8).

iii) Paulo

(1) Indo para o Novo Testamento, temos o exemplo do apóstolo Paulo. Ele também foi um cristão que entrou em contato com a cultura do seu tempo, mas não resvalou no caminho no manter firmes suas convicções.

(2) Teve a educação de um rabino que inclui mais do que os escritos do Antigo Testamento, inclui também os escritos dos rabinos que produziram muita literatura no período intertestamentário.

(3) Paulo conhecia a língua grega por seus escritos, o aramaico por ter sido criado em Jerusalém, e o hebraico por discursar em sua defesa diante dos judeus que queriam matá-lo, por acharem que ele profanava o Templo.

(4) Seus escritos revelam conhecimentos razoáveis em variadas áreas da cultura.

(a) Paulo ilustrou a vida cristã usando o mundo dos esportes, do atletismo (1 Coríntios 9:24-27);

(b) Ilustrou a objetividade no culto com a música da flauta, da cítara e da trombeta (I Coríntios 14:7-8);

(c) Falou do nosso fortalecimento espiritual pelos itens da armadura romana (Efésios 6:10-18);

(d) Falou da nossa salvação nos termos de um universo escravocrata (Romanos 7:6);

(e) Paulo podia levar os princípios eternos da revelação especial que ele recebia a sua prática, porque conhecia bem os costumes judaicos em que ele fora criado, bem como os costumes dos povos helênicos e helenizados que ele estava evangelizando (I Coríntios 11:1-16);

(f) Paulo chegou a citar poetas conhecidos das pessoas do seu tempo para manter algum tipo de contato e apresentar assim o evangelho (Atos 17:28), para demonstrar um princípio ético (I Coríntios 15:33) e, noutra ocasião, mostrar o conceito das pessoas a respeito de um dos povos que ele estava ajudando a evangelizar (Tito 1:12).

(g) Apesar deste conhecimento cultural, o apóstolo Paulo não negociava com a cultura de sua época se esta prejudicasse o cerne a Palavra que ele pregava. Para Paulo, o meio de salvação dos perdidos era a pregação do evangelho. Paulo rejeitou a retórica grega entre os gregos para que a fé daqueles irmãos não repousasse sobre a sabedoria humana, mas sobre o poder de Deus (1 Coríntios 2:1-5).

iv) Jesus Cristo

(1) O mais sublime de todos os exemplos foi deixado para o final. [Louvado seja o Santo Cordeiro de Deus, que vive e reina para todo o sempre! Amém!] O Senhor Jesus é o melhor exemplo de fiel ao Pai, que entrou em profundo contato com sua cultura, mas que não se rendeu a ela para ir de encontro aos princípios da Palavra de Deus.

(2) Aos doze anos de idade, Jesus já tinha condições de conversar com os doutores da lei. Encarando o fato de que Jesus deixou o uso de seu atributo de onisciência na sua humilhação e só predizia o futuro através do poder do Espírito Santo, isto quer dizer que Jesus já tinha profundo contato com as Escrituras e com a literatura rabínica dos seus dias, estando a par dos assuntos mais atuais. Ele se dedicou ao estudo da sua cultura com atenção e qualidade.

(3) No decorrer de sua vida, Jesus esteve presente em atividades culturais. Jesus esteve presente em casamentos, funerais, banquetes, nas sinagogas, nas festas dos judeus em Jerusalém e em um julgamento. Jesus não se exclui de citar uma cantiga de roda para ilustrar a atitude de uma geração incrédula que tinha diante de si todos os sinais dos tempos, mas não respondia positivamente a estes sinais (Lucas 7:32).

(4) Jesus era capaz de ensinar contando histórias que tinham muita relação com o cotidiano e a vivência cultural das pessoas a quem ele pregava. Parábolas como a do semeador, da ovelha perdida, do filho pródigo, do grão de mostarda, do juiz iníquo, dos talentos, das virgens, etc., demonstram o profundo conhecimento cultural que o Senhor possuía. Ele não somente citava costumes culturais, mas também os aplicava precisamente às verdades eternas que ele queria ensinar.

(5) Jesus conhecia profundamente os erros dos seus opositores. Ele era capaz de, numa pregação, alistar os erros da falsa religião judaica de seus dias e apontar o cerne de seus problemas espirituais.

(6) Jesus era imbatível no debate. Ele tinha condições de desconcertar qualquer pessoa que com malícia lhe fizesse uma pergunta para enredá-lo em suas falsas conjecturas e armadilhas. Jesus era capaz de, usando uma simples moeda, desmontar uma teia de enganos que o prenderia para entregá-lo ou aos romanos ou a um dos partidos dos judeus.

(7) Ao conhecer a cultura em que viveu, Jesus não se afastou da verdade, pelo contrário, tornou-se um eficientíssimo porta-voz desta verdade, aplicada às pessoas do seu povo e dos seus dias.

(8) Apesar de conhecer sua cultura, Jesus não se dobrou ao racismo do seu povo, ao legalismo daquela religião, ao desprezo das crianças e mulheres da sociedade patriarcal, às conveniências do elitismo social, aos apelos dos revolucionários e aos confortos dos reacionários. Jesus, na sua razão mais superficial, foi crucificado por não atender aos requerimentos culturais que judeus e gregos exigiam para o seu respectivo Messias e Cristo.

f) Vimos que cultura é a atividade humana que intenciona o uso, o prazer e o desenvolvimento da raça humana. Há cinco posições acerca do relacionamento entre o cristão e a cultura: Cristo contra cultura, Cristo da cultura, Cristo acima da cultura, Cristo em paradoxo com a cultura e Cristo transformador da cultura. Vimos também o que a Bíblia nos fala a respeito da cultura: a Bíblia diz que, quando a cultura contradiz a verdade revelada, ela deve ser combatida; a Bíblia diz também que, quando um costume cultural grifa um princípio eterno, este costume cultural é recomendado; a Bíblia diz, igualmente, que tudo foi criado por Deus, sendo essencialmente e originalmente bom, mas que o pecado contaminou a criação e que Deus dispensa sua graça aos homens para que eles realizam algo de bom neste mundo; a Bíblia relata exemplos de pessoas que tinham muito conhecimento da cultura em que estavam inseridas e permaneceram fiéis a Deus, sendo muito importantes na História da Salvação. Assim, que conclusões nós podemos tirar disso tudo?

4) Que conclusões nós podemos tirar dessas informações bíblicas?

a) Apesar da cultura estar contaminada pelo pecado, ela pode ser uma fonte da verdade, à medida que não contradiz os dados bíblicos, não deturpa a razão e se aplica a esfera certa da vida humana.

i) A cultura só pode ser uma fonte de verdade, porque Deus é soberano, Ele é verdadeiro, seu plano é imutável e perfeito, e Deus decidiu, por sua graça, derramar gotas de verdade que molharão os seres humanos envolvidos com a cultura, através da revelação divina na criação, na consciência e na providência.

ii) Quando um cientista, a exemplo, publica uma tese, obtida mediante a observação da realidade e esta não contradiz as Escrituras, não é irracional e se limita a responder as questões ligadas a sua área de conhecimento, então esta tese pode ser lida e seguida pelo cristão.

iii) O cristão pode, inclusive, entrar em contato com aqueles produtores culturais que não parecem estar refletindo a verdade nas suas produções, com uma postura crítica, mas deverá ter uma base razoável de conhecimento bíblico e experiência na fé para poder encarar de frente os autores, cientistas, artistas e políticos que se opõem ao Cristianismo. É possível ouvir Wagner e ainda ficar mais convicto de que seus cromatismos desenfreados manifestam uma música muito inteligente, mas inadequada.

iv) Em certos momentos, produtores culturais não cristãos, por causa da sensibilidade que Deus lhes dotou, desvendam os nossos olhos para verdades bíblicas que nós, sendo cristãos, não vimos antes por causa da nossa lerdeza em entender os desígnios de Deus.

b) Quando os cristãos se isolam da cultura hodierna com medo de se contaminarem pelo simples contato cultura, dois efeitos negativos acontecem dentro da igreja.

i) Os cristãos criam uma sub-cultura que é apenas uma imitação barata da cultura em voga.

(1) Ninguém pode fugir absolutamente do contato cultural.

(2) Não é possível alguém tocar violão e não usar os mesmos acordes que todos usam e não tocar num estilo semelhante ao estilo de alguém que não é cristão.

(3) O que acontecerá com este músico é que ele, sem ter contato com a teoria vigente de encadeamento de acordes, sem contato com a música tocada de modo mais requintado e profissional, sem participar dos cursos e festivais de música onde se encontram as autoridades do assunto, que este músico jamais terá condições de dominar a linguagem musical aponto de levar a sua visão de mundo cristã até as últimas implicações artísticas e musicais.

(4) É por isso que notamos aquele cantor evangélico que tem a voz parecida com aquele outro cantor do mundo, porque aquele cantor evangélico nunca chegou a levar a sua técnica musical a um patamar em que ele alcançou um estilo próprio e cristão.

(5) Quando o músico cristão está em contato com a cultura musical, ele pode receber o que há de melhor na música, avaliar este material à luz do seu Cristianismo e levar a sua arte ao caminho mais adequado e de qualidade.

ii) Além disso, quando um cristão está envolvido com a cultura, ele pode interagir para melhorar a cultura vigente.

(1) Um bom exemplo desse efeito santificador da cultura é o do compositor alemão J.S. Bach.

(2) Poucos autores duvidam da piedade e da dedicação a obra de Deus que aquele organista tinha. E nenhum musicólogo, crente ou descrente, questiona a qualidade da produção cultural de Bach.

(3) Até os músicos mais ranzinzas, como Villa-Lobos, que chegava a rasgar suas partituras se ele percebesse alguma influência de um compositor europeu na sua obra, se rendeu à técnica de Bach, escrevendo uma série dedicada ao compositor, intitulada bachianas brasileiras.

(4) Bach produziu uma obra de grande qualidade, eminentemente cristã em sua linguagem, bastante influente, porque a música dele não deixou de ser influenciada pelo que de melhor havia na cultura musical da sua época.

(5) Talvez a cultura atual está em tão densas trevas, porque os cristãos, que são luzes, resolveram se refugiar debaixo de seus alqueires, seja se misturando com o mundo, seja se isolando nos seus guetos evangélicos, a versão contemporânea dos mosteiros medievais.

c) O obreiro cristão tem obrigação de conhecer bem a cultura contemporânea para que realize bem a sua tarefa pastoral.

i) Não é possível combater um erro doutrinário, filosófico, ideológico ou comportamental com honestidade sem conhecer suas afirmações principais, seus principais proponentes, seu desenvolvimento histórico e suas manifestações atuais.

ii) Podemos nos precaver com mais sabedoria do erro, quando nós conhecemos mais objetivamente a cultura que nos cerca. É provável que muitos pastores que condenam, em suas pregações, em seu alinhamento denominacional e em sua postura diante de diversas manifestações culturais, certas idéias, estejam em algum ponto do seu ministério incorrendo nos mesmos ou em erros ainda maiores por simples falta de leitura e de formação cultural.

iii) Freqüentemente uma conclusão ética dependerá de um conhecimento cultural que vai além do conhecimento bíblico. O pastor deve aprender a extrair os princípios eternos das Escrituras e a adquirir informações da cultura em que vive e, a partir de uma harmonização daqueles dados, concluir se esta idéia, posição ou prática atual é correta ou errada, dando a supremacia devida às Escrituras. Concluímos que fumar é errado, por exemplo, não somente porque a Bíblia declara que algo que nos domina é errado nem somente porque a Bíblia afirma que a devemos cuidar do nosso corpo enquanto santuário do Espírito Santo, mas também porque a cultura nos informa que o tabagismo é uma atividade que cria dependência e causa muitos danos à saúde. A informação do eterno princípio bíblico, somada a informação que a cultura nos dá, resultará em uma regra moral prática que pode nos fazer viver de modo agradável a Deus.

iv) Um pastor que possua conhecimento cultural poderá orientar, aconselhar e interagir melhor com seu rebanho que tem se achado cada vez mais letrado e exposto aos benefícios e malefícios da cultura contemporânea. Um pastor atualizado com a cultura contemporânea poderá dialogar com seu rebanho de modo mais objetivo, mostrando-lhe os caminhos perigosos da vida hodierna, nas diversas áreas da cultura.

Conclusão

Vimos que cultura é a atividade humana que intenciona o uso, o prazer e o desenvolvimento da raça humana. Há cinco posições acerca do relacionamento entre o cristão e a cultura: Cristo contra cultura, Cristo da cultura, Cristo acima da cultura, Cristo em paradoxo com a cultura e Cristo transformador da cultura.

Vimos também o que a Bíblia nos fala a respeito da cultura: a Bíblia diz que, quando a cultura contradiz a verdade revelada, ela deve ser combatida; a Bíblia diz também que, quando um costume cultural grifa um princípio eterno, este costume cultural é recomendado; a Bíblia diz, igualmente, que tudo foi criado por Deus, sendo essencialmente e originalmente bom, mas que o pecado contaminou a criação e que Deus dispensa sua graça aos homens para que eles realizam algo de bom neste mundo; a Bíblia relata exemplos de pessoas que tinham muito conhecimento da cultura em que estavam inseridas e permaneceram fiéis a Deus, sendo muito importantes na História da Salvação.

Concluímos então que um cristão pode se envolver com a cultura, porque a cultura pode ser uma fonte de verdade desde que ela não contradiga os dados bíblicos, à razão e se aplique à esfera a que aquela esfera cultural se proponha a abordar. Além disso, quando cristãos se isolam da cultura, eles acabam criando uma cultura de segunda classe e deixam de interagir com a cultura a fim de melhorá-la.

Outro motivo por que o cristão deve se envolver com a cultura contemporânea deste modo crítico e sábio diz respeito a tarefa dos cristãos envolvidos com o ministério da Palavra: os obreiros podem conhecer melhor os erros ideológicos para combatê-los em suas próprias vidas e ministérios e na vida de suas ovelhas, e podem tirar conclusões éticas mais acertadas através de seu conhecimento bíblico e cultural.

O fim daquele filme que eu citei no início também foi muito interessante. Tanto os cristãos da nossa história começaram a aproveitar do banquete, porque chegaram a conclusão de que não havia nada de mal com aquilo, como a francesa Babette, chefe da cozinha do maior restaurante de Paris, o Caffé L’Anglais, decidiu permanecer morando com Filipa e Martina. Ela encontrou a felicidade ali. Naquele lugar, Babette tinha pessoas com quem viver e compartilhar.

O filme, “A festa de Babette”, é também uma aula de culinária, todas as entradas, todos os pratos e copos certos com os talheres certos e copos certos. A chefe diz algo surpreendente no final: “Não faço comida, faço arte”. É este pensamento de excelência cultural que o cristianismo tem que aprender a recuperar. Os reformadores até hoje são elogiados por terem incentivado a educação, as ciências, a arte, a democracia, a música e a literatura. Será que nós, que temos tanta preocupação em preservar os fundamentos da nossa fé, não temos deixado de lado esta nossa tão rica herança e princípio?


Notas Bibliográficas

[1] Michael Horton. O Cristão e a cultura, p. 12.
[2] Michael Horton. O Cristão e a cultura, p. 40-48.
[3] José Lopes Marques. A Semente do Logos. Belém: monografia, p. 18.
[4] Tertuliano apud Bettenson, H. Documentos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro: JUERP/ASTE, 1983, p.32.
[5] Abraham Kuyper. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p.38.
[6] Michael Horton. O Cristão e a cultura, p. 43.
[7] Michael Horton. O Cristão e a cultura, p. 45.
[8] John MacArthur. Pense Biblicamente. São Paulo: Hagnos, p. 498.


Bibliografia concisa:

HORTON, Michael. O Cristão e a Cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.
KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
MACARTHUR, John et alli. Pense biblicamente. São Paulo: Hagnos, 2005.
MARQUES, José Lopes. A semente do logos. Belém: Monografia, 2008.


Fonte: http://violabrito.blogspot.com