Apresentação Musical em Igrejas de Outras Denominações

por: Levi de Paula Tavares

Algumas pessoas têm levantado uma questão que, segundo cremos, merece ser analisada com maior cuidado por parte de nossos músicos adventistas. Basicamente, a questão poderia ser resumida na seguinte pergunta: Nós, como Adventistas do Sétimo Dia deveríamos aceitar convites para apresentações musicais em igrejas de outras denominações? A pergunta é pertinente e inquietante, tendo em vista o elevado número de músicos que, isoladamente ou em grupo, aceitam estes convites. Para responde-la precisamos antes analisar algumas premissas básicas com relação à música na igreja.

Em primeiro lugar, devemos pensar qual é o propósito da música na igreja. É muito importante que o músico adventista compreenda o motivo pelo qual deve ou não deve aceitar um convite como este. Para isto, a compreensão do papel da música sacra no culto de adoração fornecerá subsídios importantes para a tomada de uma decisão de acordo com princípios extraídos da revelação divina.

Podemos dizer de pronto algumas coisas que NÃO SÃO o propósito divino para a música sacra: Ser simplesmente bela, preencher um tempo vago, ser um “entretenimento religioso”, entre outros. Portanto, podemos afirmar que a música sacra tem por objetivo coisas mais elevadas do que simplesmente os gostos e os prazeres humanos. Ellen White diz, a este respeito:

“A música faz parte do culto de Deus, nas cortes celestiais, e devemos esforçar-nos, em nossos cânticos de louvor, por nos aproximar tanto quanto possível da harmonia dos coros celestiais. O devido adestramento da voz é um aspecto importante da educação, e não deve ser negligenciado. O coração deve sentir o espírito do cântico, a fim de dar a esse a expressão correta.” – Patriarcas e Profetas, pág. 594

A música sacra é uma ferramenta. Ela tem dois usos básicos: O culto e o evangelismo. Destes dois, é no culto que ela exerce o papel de maior importância. O evangelismo é um papel secundário, embora importante. No culto, ela tem duas funções:

1 – Elevar e unificar os pensamentos e propósitos dos adoradores, para que se acheguem a Deus como um só corpo.

“Fazia-se com que a música servisse a um santo propósito, a fim de erguer os pensamentos àquilo que é puro, nobre e edificante, e despertar na alma devoção e gratidão para com Deus.” – Patriarcas e Profetas, pág. 594

“A história dos cânticos da Bíblia está repleta de sugestões quanto aos usos e benefícios da música e do canto. A música, muitas vezes, é pervertida para servir a fins maus, e assim se torna um dos poderes mais sedutores para a tentação. Corretamente empregada, porém, é um dom precioso de Deus, destinado a erguer os pensamentos a coisas altas e nobres, a inspirar e elevar a alma.” – Educação, pág. 166

2- Servir como expressão de um coração agradecido e pronto a prestar culto a Deus.

“A voz humana que entoa a música de Deus vinda de um coração cheio de reconhecimento e ações de graças, é incomparavelmente mais aprazível a Ele do que a melodia de todos os instrumentos de música já inventados pelas mãos humanas.” – Carta 2c, 1892.

“Aparelhamento faustoso, ótimo canto e música instrumental na igreja não convidam o coro angelical a cantar também. À vista de Deus estas coisas são como galhos da figueira infrutífera, que só mostrava folhas pretensiosas. Cristo espera frutos, princípios de bondade, simpatia e amor. Estes são os princípios do céu, e quando se revelam na vida de seres humanos, podemos saber que Cristo, a esperança da glória, está formado em nós. Pode uma congregação ser a mais pobre da Terra, sem música nem ostentação exterior, mas se ela possuir esses princípios, os membros poderão cantar, pois o gozo de Cristo está em sua alma, e esses canto podem eles oferecer como uma oblação a Deus.” – Manuscrito 123, 1899

Bem, após estas considerações, podemos começar a responder à questão que estamos analisando: Devemos aceitar o convite de outras denominações para realizarmos apresentações de música sacra?

Antes de podermos dar uma resposta definitiva, precisamos compreender os propósitos pelos quais o convite foi feito. Se o convite foi feito com o propósito de que a participação especial seja para “embelezar” ou “enriquecer”, ou de alguma forma realizar momentos de “entretenimento religioso”, este não é um motivo correto para uma apresentação de uma música que deveria estar glorificando unicamente a Deus. O nome de Deus não deve, em qualquer ocasião, estar misturado a momentos de entretenimento, de shows, ou de qualquer tipo de programação que possa desviar o coração humano da santidade e majestade de Deus. Como vimos nos parágrafos acima, o propósito da música sacra é muito mais nobre do que isto e desejar menos do que isso banalizaria o próprio nome de Deus. Observe o seguinte texto:

“Exibição não é religião nem santificação. Coisa alguma há, mais ofensiva aos olhos de Deus, do que uma exibição de música instrumental, quando os que nela tomam parte não são consagrados, não estão fazendo em seu coração melodia para o Senhor. A mais aprazível oferta aos olhos de Deus, é um coração humilhado pela abnegação, pelo tomar a cruz e seguir a Jesus.

Não temos tempo agora para gastar em buscar as coisas que agradam unicamente aos sentidos. É preciso íntimo esquadrinhar do coração. Necessitamos, com lágrimas e confissão partida de um coração quebrantado, aproximar-nos mais de Deus; e Ele Se aproximará de nós.” – Review and Herald, 14 de novembro de 1899.

Além dos propósitos do convite, temos que analisar também os motivos pelos quais nós, como músicos, estaríamos pensando em aceitar tal convite. Se os motivos forem: Tornar-se mais conhecido, vender mais CDs, fazer amigos, atender a um pedido especial, entre outros, este não são os motivos pelos quais Deus aceitaria hinos e louvores cantados em Seu santo nome. Estes motivos, embora não sejam maus em si, são humanos, carnais e, como vimos nos parágrafos acima, a música sacra tem objetivos e efeitos muito mais elevados.

“A música só é aceitável a Deus quando o coração é consagrado, e enternecido e santificado por suas facilidades. Muitos, porém, que se deleitam na música, não sabem coisa alguma de produzir melodia ao Senhor, em seu coração. Este foi ‘após seus ídolos’ Ezequiel 6:9”. – Carta 198, 1899.

Porém, conforme vimos, a música no culto tem o duplo propósito de unificar e elevar, e também de servir de veículo da expressão do adorador. Assim, poderíamos dizer que, se a expressão da adoração é objetivo de quem fez o convite e também é este o objetivo do músico ao aceita-lo, isto seria correto? A princípio sim.

Contudo, não devemos nos esquecer que nós, como Adventistas do Sétimo Dia, temos doutrinas que nos distinguem das outras denominações. Estas doutrinas brotam de uma compreensão de certas verdades expressas nas Sagradas Escrituras que as outras denominações não alcançaram. Por este mesmo motivo é que pertencemos a esta igreja, e a nenhuma outra. Ora, havendo esta diferença teológica, a nossa adoração, como verdadeiros Adventistas do Sétimo Dia, estaria sendo plenamente aceita por Deus, em conjunção com um ambiente onde estas verdades são pisadas e desprezadas? Deus se agradaria de uma adoração realizada em parelha com mentiras e meias verdades acerca de Sua divina pessoa e dos seus mandamentos, os quais Ele entregou às Suas criaturas como prova de amor e fidelidade, como aliança? Dificilmente…

Vejamos alguns textos a este respeito:

“Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.”Mateus 5:19

“Se me amardes, guardareis os meus mandamentos. Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.”João 14:15 e 21

“E nisto sabemos que o conhecemos; se guardamos os seus mandamentos.Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade;”I João 2:3-4 3

“Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, se amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos.Porque este é o amor de Deus, que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são penosos;”I João 5:2-3 2

“Aqui está a perseverança dos santos, daqueles que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.”Apocalipse 14:12

Assim, vemos que, analisando pelo aspecto mais importante da música sacra, a adoração, é difícil encontrar uma resposta satisfatória. Sabemos que o que importa para uma verdadeira adoração é a atitude do adorador e o seu coração diante da luz a ele revelada. Mas a profundidade das questões apontadas pelos textos acima não nos deixam seguros para responder de uma forma cabal a esta questão, que envolve a inserção de um adorador da verdade em um ambiente onde esta verdade não é estimada.

Devemos então analisar o segundo aspecto do papel da música sacra: O evangelismo, o qual citamos brevemente acima. Sabemos que a música sacra também tem este papel.

“Poucos meios há mais eficientes para fixar Suas palavras na memória do que repeti-las em cântico. E tal cântico tem maravilhoso poder. Tem poder para subjugar as naturezas rudes e incultas; poder para suscitar pensamentos e despertar simpatia, para promover a harmonia de ação e banir a tristeza e os maus pressentimentos, os quais destroem o ânimo e debilitam o esforço.

É um dos meios mais eficazes para impressionar o coração com as verdades espirituais. Quantas vezes à alma oprimida duramente e pronta a desesperar, vêm à memória algumas das palavras de Deus – as de um estribilho, há muito esquecido, de um hino da infância – e as tentações perdem o seu poder, a vida assume nova significação e novo propósito, e o ânimo e a alegria se comunicam a outras almas!” – Educação, pág. 167.

Surge então uma outra possibilidade: Poderíamos aceitar um convite desses, desde que fossemos com o intuito de testemunhar a nossa fé e, quem sabe, evangelizar? A nossa tendência é responder que sim, embora que seja muito importante levantar algumas questões, as quais devem ser respondidas por cada um dos músicos adventistas, com oração e sinceridade diante de Deus.

  1. Este propósito será bem recebido pelos líderes daquela igreja que fez o convite? Caso negativo, é honesto ocultar este propósito?
  2. É possível cumprir este propósito cantando durante a cerimônia de culto desta outra denominação? Ou seria melhor ter um programa especial, onde teríamos mais espaço e mais liberdade?
  3. Esta é a melhor maneira de evangelizar? Por que evangelizarmos em uma igreja, e não em um ambiente onde haja um maior número de pessoas afastadas de Deus e que precisem ouvir das boas novas do evangelho?
  4. É isto o que Jesus tinha em mente quando deu a ordem: “Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15)?

Como vimos, o problema não é simples e as questões envolvidas não são poucas. Não foi o nosso propósito aqui servir de guia infalível ou dar uma palavra de autoridade sobre esta polêmica questão, mas apenas levantar alguns pontos que, segundo cremos, precisam ser avaliados por cada músico adventista antes de tomar a decisão de aceitar um convite como este. A resposta final a esta questão será conseguida através de muita oração, comunhão e desejo de agradar a Deus.

Que Deus nos ajude a fazer, sempre mais decididamente, a Sua vontade!

um abraço!
Levi