A Santidade de Deus – César Luís Pagani

por: César Luís Pagani

Verso Principal: Exaltem o Senhor, o nosso Deus; prostrem-se voltados para o Seu santo monte, porque o Senhor, o nosso Deus, é Santo.” Salmos 99.9-NVI.


Introdução:

A semântica interpreta “santidade” como significando aquilo que é referente à Divindade; aquilo que é essencialmente puro e perfeito, que tem caráter sagrado… Em termos teológicos, santidade assume uma profundidade, quando referente ao Criador, que nos é impossível entender de modo mais abrangente.

O Kodesh Kodashim ou Santo dos Santos do santuário terrestre nos dá alguma idéia da santidade divina. O sumo sacerdote, no dia da expiação, tinha de fazer uma obra purificadora especial por si mesmo antes de penetrar além do véu. Tinha de ser santo porque o shekinah, símbolo da presença de Deus era santíssimo. O próprio lay-out do santuário revela que, quanto mais o humano se aproximava de Deus, maior era a santidade do lugar onde se encontrava. Moisés teve de tirar as simples sandálias de um pastor de ovelhas ao pisar o terreno onde Deus Se encontrava. Observemos que mesmo os santos anjos se prostram com o rosto no solo diante da presença divina. É uma atitude natural em reconhecimento da perfeição do caráter do Altíssimo.

O teólogo puritano Jonathan Edwards (1703-1758 considerou que santidade é: “uma parte considerável da retidão moral de Deus, pela qual Ele é inclinado a tudo o que é correto, adequado e amável (isto é, agradável, admirável) intrinsecamente, consiste em ter Ele a mais elevada consideração por aquilo que é, em si mesmo, superior e melhor. A probidade de Deus deve constituir uma devida reverência por aquilo que é objeto de respeito moral, ou seja, pelos seres inteligentes capazes de atos e relacionamentos morais. E, portanto, deve consistir, acima de tudo, em reverenciar apropriadamente o Ser ao qual essa reverência é devida, pois Deus é infinitamente mais digno de ser reverenciado.A dignidade de outros não é nada em comparação com a dignidade dEle; a Ele pertence toda reverência possível. A Ele pertence toda a reverência de que qualquer ser inteligente é capaz. A Ele pertence todo o coração. Logo, se a retidão moral do coração consiste em reverenciar sinceramente aquilo que é devido, ou que assim o requer por força de seu merecimento e propriedade, esse merecimento requer que se preste deferência infinitamente maior a Deus, e a negação dessa deferência pode ser considerada uma conduta infinitamente imprópria. Segue-se, portanto, que a retidão moral da disposição, inclinação ou afeição de Deus consiste sobretudo numa deferência por Si mesmo infinitamente superior à sua deferência por todos os outros seres; em outras palavras, é nisso que consiste a Sua santidade.”

“Jeová, o Ser eterno, existente por Si mesmo, incriado, sendo o originador e mantenedor de todas as coisas, é o único que tem direito a reverência e culto supremos. Proíbe-se ao homem conferir a qualquer outro objeto o primeiro lugar nas suas afeições ou serviço…” PP, 305.


“Está Escrito”

Deus é transcendente; está muito acima das ideias e conhecimentos humanos. Por ser naturalmente inacessível ao homem, Ele precisou revelar-Se. Fê-lo pela Natureza e suas obras, por Sua Santa Palavra e, mediante a mais sublime de todas as revelações: Jesus Cristo. Fora dessas três fontes de conhecimento, é impossível conhecer o excelso Criador.

O Senhor providenciou para que Sua Palavra orientasse a apreensão (compreensão do que pode ser conhecido) dEle. Ela é a regra de fé e prática. Embora necessite de interpretação regrada (hermenêutica), essa pode ser totalmente provada pelo próprio instrumento revelador, isto é, a Escritura. É claro que pode haver más interpretações das Escrituras. “… Há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles.” (2Pe 3:16)

Os homens em sua parvoíce (imbecilidade) acham que podem encontrar a Deus filosofando – meditando e buscando mediante raciocínios próprios – e teosofando (criando doutrinas religiosas de caráter místico mescladas com reflexões filosóficas para obter aprimoramento espiritual). Podem mesmo teologizar, concedendo à própria teologia o poder semidivino de atingir a ciência suprema. A teologia tem seu alto valor, mas somente quando se encontra inteiramente apoiada nas Escrituras e seus pensadores guiados pelo Espírito revelador.

Um exemplo de distorção teológica das Escrituras é a predestinação calvinista. Outro é a concepção da imortalidade da alma humana. Outro ainda refere-se às teologias sobre o milênio.

Querem mais uma amostragem? Consultem vários comentários e exegeses de textos bíblicos e verão em alguns tremenda diversificação de opiniões e contraposições. Devemos por isso desprezar comentários e exposições? Não! Eles são muito úteis e precisamos compulsá-los. Mas faz-se imperioso compará-los com as revelações do Espírito Santo (Bíblia e Testemunhos). A medida suprema de aferição é a Sagrada Palavra de Deus, que é viva e eficaz e mais cortante do que espada aguda de dois gumes. Onde está a nossa segurança em conhecer a verdade sobre o Pai? Acha-se num “Assim diz o Senhor.” Ora, se Ele diz algo então aí está a verdade. “Um ‘Assim diz o Senhor’, não deve ser posto à margem por um ‘Assim diz a igreja’, ou um ?Assim diz o Estado’.” AA, 69. Essa expressão autoritativa e seus similares são encontrados cerca de 3.800 vezes nas Escrituras.

“Várias vezes, cada dia, preciosos e áureos momentos devem ser dedicados à oração e ao estudo das Escrituras, nem que seja para guardar na memória um só texto, a fim de que haja vida espiritual na alma.” Testimonies, vol. 4, pág. 459.

E o Espírito de Profecia também é um “Assim diz o Senhor”? Ressalve-se que os Testemunhos não estão em pé de igualdade com a Bíblia. A Escritura é a voz divina e o EP um expositor ou explicador dela (aquele que interpreta ou que torna inteligível o que parecia obscuro ou incompreensível). Lembremo-nos de que são “uma luz menor para guiar a uma luz maior”. “Em meus livros a verdade é declarada e fortalecida por um ‘Assim diz o Senhor’. O Espírito Santo traçou essas verdades sobre meu coração e mente de maneira tão indelével como a lei foi traçada pelo dedo de Deus nas tábuas de pedra, as quais estão agora na arca, para serem expostas naquele grande dia, quando a sentença será pronunciada contra toda má e sedutora ciência produzida pelo pai da mentira.” Carta 90, 1906.

“Quando a Palavra de Deus for estudada, compreendida e obedecida, uma luz brilhante se refletirá sobre o mundo; novas verdades, recebidas e postas em prática, ligar-nos-ão, em fortes laços, a Jesus. A Bíblia e a Bíblia tão-só deve ser nosso credo, o único laço de união; todos os que se submeterem a essa Santa Palavra estarão em harmonia entre si. Nossos próprios pontos de vista e ideias não devem controlar nossos esforços. O homem é falível, mas a Palavra de Deus é infalível. Em vez de lutar uns com os outros, exaltem os homens ao Senhor. Defrontemos toda oposição, como o fez o Mestre, dizendo: ‘Está escrito.’ Ergamos o estandarte no qual está escrito: A Bíblia, nossa regra de fé e disciplina.” Review and Herald, 15 de dezembro de 1885.

A divisão “Antigo Testamento” e “Novo Testamento” é didática e não tem por fim obsoletar o que foi escrito antes da primeira vinda de Jesus. Pelo contrário, como bem exposto na lição: “… toda teologia do Novo Testamento está intrinsecamente ligada ao Antigo Testamento.” A fé de Jesus por Ele manifesta em Sua vida estava estritamente fundamentada no Antigo Testamento. Esse serve de firme base para as exposições do Novo.

A igreja apostólica fundamentou sua fé na “Lei e nos profetas”, isto é, no AT. O próprio Jesus mandou examinar as Escrituras para a apuração da verdade. Quando Ele disse isso, só existia o AT.
(VerMt 5:17,18; Mc 12:36; Lc 16:31). Os apóstolos não fizeram diferentemente. Como a verdade é progressiva e figurada pela luz do dia que vai se tornando cada vez mais brilhante, eles explicaram o evangelho eterno acrescentando novas inspirações ao que fora escrito no passado. Que eles tinham o AT como Palavra autorizada de Deus, pode ser visto nas menções escriturísticas que fazem (Ver Rm 3.2,21; 1Co 4.6; Rm 15.4; 2Tm 3.15-17; 2Pe 1.21).

Também seus ensinamentos orais ou escritos alicerçavam-se na Lei, nos Salmos e nos Profetas (1Co 2.7-13; 14.37; 1Ts 2.13; Ap 1.3). Enfatizavam e mesmo ordenavam que seus escritos – inspirados como os do AT, fossem lidos publicamente (1Ts 5.27; Cl 4.16,17, 2Ts 2.15; 2Pe 1.15; 3.1-2, promovendo assim a compreensão da unidade da Bíblia. Eles consideravam as revelações transmitidas à igreja pelo escritos proféticos, como parte indissociável das instruções apostólicas e seguro fundamento da igreja cristã, o judaísmo verdadeiro e completo (Ef 2.20).


Ser Separado

Semanticamente “separar” tem o sentido de reservar, guardar. Em Gn 2:3 a palavra “santificar” provém do hebraico kadosh com os significados de: separar como sagrado, tratar como santo ou apartado para uso divino especial.

A santidade de Deus foi outorgada eternamente ao sétimo dia. O sábado é digno de honra pois nEle se encontra a vontade divina (Is 58:13), porque o Senhor atribuiu-lhe Sua santidade. Como obra criada, o sétimo dia recebeu a concessão de santidade. Embora idêntico temporalmente aos demais dias, ele foi “separado” dentre os dias da semana pela tríplice bênção divina: é bendito, é santo e é preferido do Senhor.

O sábado é também produto da vontade do Criador e é Lei. Não pode ser revogado, emendado, revisado, retificado como qualquer preceito de leis humanas.

A santidade própria do Senhor é uma realidade cuja concepção podemos apenas tocar nas fímbrias. Ela impõe tamanha reverência aos santos anjos que eles se curvam até o chão para demonstrar profundo respeito. Os seres santos que estão em Sua presença imediata fazem a mesma coisa: “Os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante dAquele que se encontra sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão as suas coroas diante do trono, proclamando: Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.” (Ap 4:10, 11)

Tal santidade nos ensina a amar a Deus em primeiro lugar, a fazer Sua bendita vontade, a ordenar nossa vida segundo os moldes por Ele prescritos, a andar em Sua presença santa com vigilância, oração e humildade.

As mostras da separabilidade ou santidade do Senhor podem ser vistas na expulsão do primeiro par. Nossos pais não mais puderam habitar na presença da santidade suprema; na terra arenosa próxima a Moisés, onde crescia a sarça ocupada pelo Anjo do Senhor, foi exigida reverência com a retirada de suas poentas sandálias. Também demonstrada no símbolo de Sua augusta presença – a arca sagrada – onde Uzá encontrou a morte por fulminação ao desrespeitar sua santidade. Quem sabe poderíamos acrescentar o juízo sobre Datã, Coré e Abirão, juntamente com seus seguidores, por afrontarem a santidade divina na pessoa de Seus representantes terrenos.

Por que Deus se assenta num alto e sublime trono? As Escrituras nos dão a entender que o trono divino está muito acima do piso do Lugar Santíssimo do santuário celeste. Deus quer Se mostrar? Absolutamente! Ele não precisa disso. Acredito que o Senhor, para o bem de todas as Suas criaturas, fica no alto, vigilante como o pastor que vela por suas ovelhas. Ele quer olhar Seus filhos desde o alto, assim como uma mãe zelosa tem sob seus olhos a figura do filho que brinca despreocupadamente no quintal. Por outro lado, está em nossa psique ou mente que as coisas elevadas fazem sentir nossa pequenez. Isso é muito bom no sentido de depender inteiramente da graça e de criar em nosso coração um santo temor que nos leva a conquistar a verdadeira sabedoria, porquanto o temor do Senhor é a base de toda a verdadeira sapiência.

As loas cantadas pelo apóstolo Paulo em 1Tm 1:17: “Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!”, expressam o profundo respeito do apóstolo pela Figura Majestosa e Sublime do Senhor.

Honra e glória – “Sede santos porque Eu sou santo.” É uma exigência justa que sejamos imitadores de Deus (Ef 5:1), porque representamos Sua santidade diante dos homens. Nosso estilo de vida revela se estamos cumprindo a ordem de santidade dada por Deus ou furtando-Lhe a honra por sermos falsos embaixadores. Não basta uma mera profissão de fé.

Se crermos na Onipresença do Senhor, que é um fato consumado pela fé, teremos cuidado em nosso proceder. Sabendo que Ele está em todos os lugares cuidaremos em andar como sob Seus olhos. “Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade…” (2Pe 3:11) Em outras palavras, andar como Cristo andou (1Jo 2:6)

Nossa separaçãocomo exigência da santidade divina– “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.” (Tg 1:27) O santo justificado pela graça de Cristo não tem nada a ver com o mundo, suas modas, costumes e cultura.


Arrepender-se no pó e na Cinza

Quando a santidade divina é percebida pelo homem e esse vê sua terrível pecaminosidade, brota o arrependimento ou desprazer profundo pelo pecado cometido ou pelo baixo nível espiritual que ostenta.

“No pó e na cinza” – Uma das acepções bíblicas de pó e cinza é o estado físico e químico a que o homem é reduzido após a decomposição de seu corpo. Nada mais que elementos químicos dispersos. Abraão considerava-se pó e cinza diante do Senhor (Gn 18:27). Poderíamos equivaler essa expressão à nossa bem brasileira “arrependo-me até o último fio de cabelo”.

Arrependimento é uma das condições para o recebimento da graça perdoadora e restauradora. Em geral ele é acompanhado por confissão sincera dos pecados.

“Arrependei-vos e convertei-vos” era a síntese da mensagem de João Batista e depois de Jesus aos judeus e gentios. Qual a finalidade da dupla ação? “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados.” (At 3:19)

Chegamos ao tempo de arrepender-nos e converter-nos. Estamos orando todos os dias pelo reavivamento e reforma. Não é, porventura, dirigida a nós a mensagem: “Sê, pois, zeloso e arrepende-te” (Ap 3:19)? Os tempos de refrigério pela presença do Senhor, o Espírito Santo, estão programados para os nossos dias, pois logo o Pai enviará Cristo Jesus, que ainda está no Céu e ali permanecerá até que terminemos a obra que nos foi designada (Ler At 3:19-21)

É também nossa comissão ao mundo: “… Em Seu nome, se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém.” (Lc 24:47)

Como é produzido o arrependimento – “A função do Espírito Santo é distintamente especificada nas palavras de Cristo: ‘E, quando Ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo.’ Jo 16:8. É o Espírito Santo que convence do pecado. Se o pecador atende à vivificadora influência do Espírito, será levado ao arrependimento e despertado para a importância de obedecer aos reclamos divinos.” AA, 52.

A visão de Cristo crucificado por amor do pecador e produzida pela ação do Espírito Santo, levar-nos-á à profunda repulsão própria por causa de nossas transgressões.

O verdadeiro arrependimento produz obras dignas. Ele não fica só na tristeza pelo pecado. Ipso facto o pecador é movido a consertar o que fez de errado – lembremo-nos do exemplo de Zaqueu -, a pedir perdão às pessoas a quem ofendeu ou lesou de alguma maneira, a restituir o que foi tomado por trapaça, logro, astúcia e perfídia. Há uma real mudança de rumo pelo poder do Altíssimo.

Um item a constar de nossa lista de pedidos a Deus – Podemos e devemos pedir a Deus que nos dê arrependimento sincero de nossos pecados, e que produzamos obras que o evidenciem em nossa vida. Outro pedido a fazer é que o Espírito nos dê uma visão de Cristo. Os exemplos bíblicos que temos mostram-nos que a compreensão maior da santidade divina põe em pungente evidência nossa pecaminosidade. Nossos olhos são abertos e a compunção profunda nos atinge, produzindo tremenda sede de pureza e santo procedimento. À luz da cruz de Cristo descobrimos nossa maldade e nos enojamos de nossa mera profissão de fé na verdade. A conversão verdadeira acontece e nos rojamos aos pés de Cristo clamando: “Purifica-me, Senhor!”


“Afasta-Te de Mim”

A pecaminosidade tem desvairado pavor da santidade divina. Os gadarenos praticamente expulsaram Jesus de Decápolis porque Ele, além de salvar os endemoninhados, deu prejuízo aos porqueiros que lucravam com o comércio de carne impura. Sua presença santa os incomodava. Caim interpretou a revelação divina de seu futuro (“fugitivo e vagabundo serás na terra”), como uma sentença de expulsão declarada por Deus, quando foi sua própria iniquidade que o fez distanciar-se do Éden (Ver Gn 4:12) e da presença do Senhor. Homens ímpios dizem a Deus: “Retira-Te de nós! Não desejamos conhecer os Teus caminhos.” (Jó 21:14)

Jeová do AT condenado em juízo por Sua crueldade e inexorabilidade !!!!!????? – Não poucos cristãos, inclusive teólogos ilustrados e célebres, fazem diferença entre o Pai, o Deus do AT e Cristo, o Deus do NT, condenando sumariamente o primeiro por agir com impiedade ou falta de piedade. Essa atitude revela total desconhecimento escriturístico e discernimento espiritual.

Lembramos aos desafetos do Deus do AT que no NT estão profetizados juízos contra nações, povos, tribos e línguas por causa dos pecados praticados. Como Deus agiu no AT, atua no NT. “Eu, o Senhor, não mudo.” (Ml 3:6) Deus não tem prazer nenhum em punir ou destruir. Ele é o Doador e não o destruidor da vida. “Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?” (Ez 33:11)

Quando a santidade de Deus é afrontada além dos limites de retorno do pecador – caso típico de Ananias e Safira -, a justiça punitiva entra em ação. Estaria Deus errado em punir impenitentes irremediáveis como os antediluvianos?

Imaginemos que Ele tolerasse indefinidamente os desmandos e transgressões cada vez maiores dos homens. Que permitisse ser Sua Lei violentada, pisoteada, anulada e transgredida à vontade. Não estaria sendo conivente com o mal? Avalizando a injustiça e fazendo parceria – embora involuntária – com o maligno?

Muitos nada querem a ver com Deus por causa da propaganda tendenciosa e maligna que Satanás tem feito através de mídias humanas, eletrônicas, ministeriais, etc.

Que farão os ímpios quando da volta de Jesus? “Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” (Ap 6:15-17) Não há outra reação possível da impiedade diante da consumidora santidade divina.

O pedido de Pedro que Jesus não pôde atender

“Retira-Te de mim, porque sou pecador.” Se o maior amor de Jesus é pela ovelha perdida, como poderia Ele atender a petição de Pedro. O velho pescador sentia sua tremenda indignidade em estar na presença de Cristo Jesus. O milagre operado por Jesus naquela pesca revelou-lhe que não era um simples profeta que estava diante dele. Era o Cristo, o Filho do Deus Vivo. Pedro entendeu que não podia, como homem vil, estar próximo do Santos dos santos.

É interessante que Jó fez a mesma oração, mas por outra razão: “Retira-Te de mim, pois vaidade são os meus dias.” (Jó 7:16 – VARC). Ele estava “cansado de ser pressionado por Deus”, a quem atribuía toda a sua infelicidade. Também Deus não se retirou dele. E por isso mesmo temos um final feliz em sua história: “Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra.” (Jó 42:10) E: “Também teve outros sete filhos e três filhas. Chamou o nome da primeira Jemima, o da outra, Quezia, e o da terceira, Quéren-Hapuque. Em toda aquela terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó; e seu pai lhes deu herança entre seus irmãos. Depois disto, viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos e aos filhos de seus filhos, até à quarta geração. Então, morreu Jó, velho e farto de dias.” (Jó 32:13-17)


Quando Demônios Falam

A narrativa da cena da confissão do demônio surpreende ao revelar que o espírito das trevas estava na sinagoga (lugar de reunião religiosa dos judeus) de Cafarnaum, onde se costumava estudar os Escritos Proféticos e adorar a Deus. Como pode um demônio estar num ambiente onde Deus é invocado e louvado? E ainda no dia de sábado?

Um dos membros da sinagoga estava possuído 100% por ele. Enquanto Jesus ensinava, o demônio falou através de sua vítima: “Ah! O que quer de nós, Jesus de Nazaré” O Senhor está aqui para nos destruir? Sei muito bem quem é o Senhor: é o Santo mandado por Deus!” (Lc 4:34 – BLH) Era intuito do líder dos demônios perturbar a pregação de Cristo e tirar a atenção dos presentes das palavras de vida que Cristo proferia.

“Falava Jesus na sinagoga acerca do reino que viera estabelecer, e de Sua missão de libertar os cativos de Satanás. Foi interrompido por um agudo grito de terror. Um louco precipitou-se dentre o povo para a frente, exclamando: ‘Ah! que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste a destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus.’ Lc. 4:34.” DTN, 255.

Primeiramente o mau espírito usa o pronome “nós”, indicando que ele não estava sozinho no domínio do pobre homem, mas que havia outros auxiliando-o, embora fosse o principal dominador. Jesus mostrou como funciona a possessão: “[O espírito imundo] leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro.” (Mt 12:45). O temor de serem destruídos por Cristo fê-los perturbar os ensinos de Cristo. Então o porta-voz dos demônios revelou que Cristo era o Santo enviado por Deus. O reconhecimento da santidade de Cristo equivalia ao acatamento de Sua divindade. Cristo tinha poder para destruí-los, sim. As palavras do anjo decaído mostram que ele estava com medo. Está escrito: “Até os demônios creem e tremem.” (Tg 2:19). As hostes do mal se sentem ameaçadas na presença da santidade divina.

Cafarnaum estava infestada de hostes demoníacas para prejudicar a obra de Jesus. Se você ler os versos 40 e 41 do mesmo capítulo, verá que os demônios, ao saírem de suas vítimas, gritavam: “Tu és o Filho de Deus.” Ao anunciarem que Jesus era o Verbo encarnado, estavam ligando-o à obra deles. Queriam levar o povo a pensar que Ele tinha ligação com os espíritos do mal e expulsava os demônios pelo poder de Belzebu, como os escribas haviam afirmado.

Dentre as muitas lições que a Escritura nos revela nas passagens estudadas hoje, é que o inimigo das almas vai aos cultos da igreja. Ele não é impedido de lá entrar, mas lhe é vedado perturbar os que verdadeiramente buscam libertação em Jesus, e tem o espírito voltado para a devoção a Deus. EGW diz que Satanás tem seus conversos dentro da igreja. Essa é uma revelação muito grave. Os líderes precisam estar atentos às manobras de alguns que se infiltram no meio dos santos para levá-los a profanar o Santo Nome.

Um detalhe que nos chamou a atenção foi a designação “espírito de demônio imundo”. À primeira vista a expressão parece extravagantemente redundante. Haveria espírito de demônio puro? Cremos que o que o evangelista Lucas quis dizer é que há uma classe de demônios cuja atividade é mais patente, e que tem como missão dominar completamente seres humanos que se puseram em terreno proibido. Os demônios atuam em todas as classes sociais. Quando há possessão, parece-nos cabível a expressão “espírito de demônio imundo”.

“Muitas vezes nos dias de Seu ministério terrestre, o Salvador enfrentou Seu adversário em forma humana, quando Satanás, como um espírito imundo tomava posse de homens. Ele toma posse de mentes humanas em nossos dias. Em meus labores na causa de Deus, tenho repetidamente enfrentado aqueles que estavam assim possessos, e em nome do Senhor tenho repreendido o espírito mau.” ME2, 353.

Outro aspecto destacável da lição é que se os próprios demônios reconhecem a tremenda santidade de Deus, por que nós, muitas vezes, estamos tão desapercebidos dela? Os comportamentos impróprios na casa de Deus e fora dela não são, porventura, evidência desse desapercebimento?