O Reino do Ruído

por: Marco Aurélio B. Lima

Além do “este é o lugar perfeito para uma emboscada”, existe outro chavão de faroeste muito comum, quando o mocinho, novamente pressentindo o perigo, afirma de forma soturna, olhando para os lados: “isso aqui está muito silencioso para o meu gosto”.

Mas vamos deixar pra lá um pouco cowboys, mocinhos e bandidos. Reclamar do silêncio me faz lembrar de nossa luta diária e da má educação de nossos ouvidos. Todo dia quando entramos no carro ou chegamos em casa do trabalho repetimos inconscientemente essa frase: isso aqui está silencioso demais pro meu gosto. A primeira atitude qual é? Ligar o aparelho de som ou a televisão. Queremos espantar o silêncio, queremos barulho. Assim como ao mocinho do filme, o silêncio nos parece mau agouro.

Faz parte do nosso mundo. O silêncio tornou-se artigo em extinção, indesejado. Para alguns por imaginarem que se não há nada ligado está- se perdendo tempo, há informação demais a ser recebida e qualquer instante é precioso. Para a maioria, contudo, o silêncio não é bem vindo por uma razão mais profunda: é que é no silêncio que se ouve a voz de Deus.

O silêncio nos faz pensar, nos faz meditar um pouco em nossa situação pessoal e não há nada que apavore mais ao homem moderno. Uma boa prova disso é o tipo de diversão predileta da juventude. Luzes frenéticas dançando num ambiente escuro e um som ensurdecedor batendo estaca, marcando o ritmo como se fosse um ritual tribal, e fumaça, claro, muita fumaça. Ali é impossível alguém parar para pensar na vida, para refletir no que está fazendo, no curso que está dando à sua vida, pensar na sua própria solidão, no seu desajustamento. A idéia é colocar todo mundo para fora de si mesmos, catárticos, frenéticos, dopados de uma forma ou de outra.

Por outro lado, cresce o mercado da meditação transcedental e da yoga, práticas eminentemente silenciosas e reflexivas. Ali, contudo, a voz de Deus é abafada por um princípio equivocado: a pessoa é convidada a conhecer-se para encontrar o deus que há lá dentro. O meditador busca dentro de si próprio a fagulha divina, e não ouvir a voz de Deus falando dentro de si. Notou a diferença? Ninguém vai ouvir a voz de Deus buscando as respostas na sua própria natureza. De um jeito ou de outro, tapamos os ouvidos para quem tem as palavras certas.

É preciso desesperadamente brecar a correria, desplugar o mundo insano em que vivemos e deixar a voz de Deus falar sem opor apartes, sem tecer observações, sem protestos, ainda que ela principie por nos mostrar como somos solitários, como somos incompletos, como somos egoístas, porque na seqüência Ele vai dizer é como resolver o problema, como Ele de fato já resolveu o problema. É preciso cultivar o encontro.

É preciso treinar os ouvidos a anular a cacofonia estressante da rotina e saber identificar a voz de Deus. Desesperadamente. Que tal agora?


Esta meditação foi escrita em 14/05/2004 e divulgada por e-mail.