Apresentaremos a Deus uma Oferenda Musical Aceitável?

por: Hugo Dario Riffel

A religião verdadeira, entendida como a íntima comunhão espiritual entre Cristo e o crente, a presença e inspiração do Filho de Deus em todos e cada um dos atos da vida do cristão, não exige nenhum rito especial para a sua realização.

Por outro lado, a arte, pura intuição lírica, carece de finalidade em si mesma. Não obstante quando se associa aos atos religiosos, apresenta um efeito utilitário definido, mas espiritual, pois participa da mais elevada das atividades humanas: a relação com o Ser Supremo.

De todas as artes, há uma que tem predominado na vida religiosa de todos os tempos, talvez por ser a mais insubstancial e etérea de todas – a música. Desde os tempos apostólicos se aconselha aos fiéis: “Falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor, com hinos e cânticos espirituais” (Efésios 5:19). Também ao surgir o Movimento Adventista, escreveu a Sra. White:

“Com um cântico Jesus, em Sua vida terrestre, defrontou a tentação. Muitas vezes, quando eram proferidas palavras cortantes, pungentes, outras vezes em que a atmosfera em redor dEle se tornava pejada de tristeza, descontentamento, desconfiança, temor opressivo, ouvia-se o Seu canto cheio de fé e de santa animação.” – Ellen G. White, Educação, p. 165.

“A história dos cânticos da Bíblia está repleta de sugestões quanto aos usos e benefícios da música e do canto”. “…Corretamente empregada, porém, (a música) é um dom precioso de Deus, destinado a erguer os pensamentos a coisas altas e nobres, a inspirar e elevar a alma.” “Assim como os filhos de Israel, jornadeando pelo deserto, suavizavam pela música de cânticos sagrados a sua viagem, Deus ordena a Seus filhos hoje que alegrem a sua vida peregrina. Poucos meios há mais eficientes para fixar Suas palavras na memória do que repeti-las em cânticos. E tal cântico tem maravilhoso poder”. – Idem, ibidem, p. 166 e 167.

Depois de referências tão claras, não nos restam dúvidas acerca da importância da música, e particularmente do canto sagrado, na vida cristã.

Toda música que é executada diante do Senhor deve ser considerada como uma oferenda perante Seu trono. Devemos lembrar-nos de Abel e Caim quando apresentaram seus sacrifícios a Jeová. Abel deu o que Deus pedia, e sua oferta foi aceita. Caim deu o que lhe pareceu melhor, e sua oferta foi rejeitada. Não eram maus os frutos da terra, que Caim ofereceu; além disso, eram o resultado de árduo trabalho de meses, mas Deus havia ordenado outro sacrifício, e sempre se deve dar a Deus o que Ele pede.

Que oferendas musicais apresentamos perante o Senhor em nossos cultos e em nossos lares? Poderemos oferecer música genuinamente religiosa, música de beleza transcendente, de autores inspirados, executada de maneira sóbria e digna, que guie a mente da congregação para pensamentos elevados e puros. Por outro lado, vivemos rodeados de música que brota de receptores de rádio, fonógrafos, etc.; música escrita e executada com o objetivo de excitar os sentimentos do coração carnal. De tal maneira nos envolve essa espécie de música, tão agradável aos ouvidos, que é apresentada a Deus nos serviços religiosos. Todavia, é necessário compreender que o fato de um trecho musical se mostrar agradável aos nossos ouvidos e excitar nossos sentimentos, não é razão suficiente para trazê-lo diante da presença divina. Assim como os frutos da terra, trazidos por Caim – certamente belos à vista e deliciosos ao paladar – foram rejeitados, também a referida espécie de música deixará de cumprir seu objetivo, pois não elevará a congregação ao Altíssimo e será um momento de culto intranscedente e fora de lugar.

Percebe-se, no mundo religioso, verdadeira preocupação pela qualidade da música executada nos cultos. No exemplar de julho de 1961, da publicação trimestral da Corporação Americana de Organistas, Tiago Boeringer chama a atenção para “o reavivamento na liturgia que afetou cada ramo da música hebraica e cristã; os judeus estão voltando a sua antiga maneira de cantar; a igreja Católica está fomentando melhores execuções de canto gregoriano, instando que seus fiéis participem dos serviços de canto e proibindo o uso do órgão eletrônico; as igrejas bizantinas estão utilizando sua rica herança de cânticos; e as igrejas protestantes aceitam cada vez menos hinos de qualidade inferior, canções seculares com letra religiosa, o mau uso do órgão e serviços musicais desorganizados e insubstanciais, em que o sentimentalismo substitui a verdadeira experiência religiosa”.[1]

[No mesmo sentido, vemos a Igreja Adventista do Sétimo Dia tomando decisões para melhorar a qualidade e a santidade dos cultos, da música, da adoração. Um exemplo pode ser citado na “Filosofia Adventista de Música”, editada pelo Concílio Outonal da Conferência Geral, em 1972. O que nós perguntamos, então é o seguinte: Por que, apesar de tantas tentativas ditas “oficiais” para o melhoramento da qualidade de nossa adoração, insistimos em oferecer a Deus um culto tão carregado de pequenezas, do popular, do insignificante, do mundano?].[2]

Certamente os ministros do evangelho estão interessados na elevação do nível musical em suas igrejas. A partir deste número da revista O Ministério Adventista, procuraremos dar algumas idéias para que os serviços musicais em nossos cultos estejam à altura da mensagem que pregamos, e sendo também verdadeira benção para os fiéis.[3]


Notas:

[1] Citado por H.E. Hannum, em The Ministry, Janeiro de 1963, p.19.

[2] Todos os trechos localizados entre [colchetes] são adições dos editores do Música Sacra e Adoração, não constando do artigo original (nota dos editores do Música Sacra e Adoração).

[3] Os artigos mencionados pelo autor neste parágrafo estarão disponíveis em nosso espaço virtual com o passar do tempo. O leitor poderá procurá-los em nossa ferramenta de busca: ou pelo nome do autor (Hugo Dario Riffel); ou pelo nome da Revista para a qual ele escreveu (O Ministério). (Nota dos editores do Música Sacra e Adoração).


Fonte: Revista O Ministério Adventista, julho-agosto, 1965. P. 20.