Música: Força Ecumênica?

por: Wolfgang H. M. Stefani[*]

A musica popular é reconhecida como força poderosa e unificadora

Como adventistas do sétimo dia, cremos que nosso testemunho deve ser total – uma mensagem integrada para o espírito, mente e corpo. Consideramos a fé cristã não apenas como uma coleção de doutrinas, mas como um estilo de vida a ser desfrutado e partilhado com outros. Assim sendo, dimensões de estilo de vida como regime alimentar e exercício físico são partes de nossa fé, ao mesmo tempo que serviços médicos, educacionais e de assistência social são vitais para nossa expansão.

Necessidade: um testemunho estético – Há, entretanto, certos pontos cegos ou brechas em nossa mensagem, tanto na maneira como é proclamada como na maneira como é vivida. Uma dessas brechas são as artes, ou aquilo que é amplamente definido como área estética – música, dança, teatro e filmes cinematográficos. Este é um aspecto do estilo de vida adventista no qual a comunicação e a transmissão de valores característicos são fracas. O estudo Valuegenesis demonstra que nem um quarto dos jovens adventistas apóia a posição ou os padrões da igreja nesta área[1]. Os dados sobre os adultos mostram uma discordância idêntica. O interessante é que ideais relacionados com a saúde, como a proibição do uso de fumo, cerveja, licor e drogas ilegais, bem como a necessidade de exercício diário, foram surpreendentemente endossados[2]. Sem dúvida, a rejeição do estilo de vida adventista não é geral. Mas não seria exagero dizer que hoje em dia as artes são um componente do estilo de vida adventista a respeito do qual o último verso do livro de Juízes é uma triste verdade: “Cada uma fazia o que parecia reto aos seus olhos”.

Lamentavelmente, considerações sobre as artes são geralmente relegadas à posição de notas finais em nossa mensagem, se é que são mencionadas. Talvez isso ocorra por não consideramos as artes suficientemente importantes para fazerem parte do corpo de nossa mensagem, ou talvez estejamos inseguros quanto ao que dizer a respeito. Seja qual for o caso, creio que chegou o tempo de considerarmos esta omissão. Como Adventistas do Sétimo Dia, estamos convictos de que temos um testemunho doutrinário para proclamar ao mundo, e um testemunho quanto a saúde para partilhar e praticar. Mas isso é tudo? Não existe também um testemunho estético em nossa mensagem integral? Quando Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, será que esta verdade refletida em Jesus incluía alguma verdade pertinente a área estética? Ou não existe nenhuma verdade estética? Deveria a verdade acerca da área estética ser legitimamente ignorada por não ser importante? Ou será que estamos cada vez mais intimidados por aquilo que consideramos subjetivo, uma questão de “gosto e preferência”, especialmente em uma comunidade de fé multicultural?

Creio que Roger L. Dudley, autor de Valuegenesis: Faith in the Balance, estava certo quando concluiu sua discussão acerca da avaliação da transmissão do estilo de vida adventista chamando “a máxima atenção dos líderes, educadores e pastores denominacionais” para esta área, bem como convocando “extensivo diálogo interativo para esclarecer como princípios bíblicos eternos devem ser transformados em orientações especificas para nossa época e posição geográfica”[3]. Se deixarmos de fazer isso, os resultados serão evidentes – a próxima geração de adventistas, de modo geral, irá simplesmente abandonar os padrões adventistas “supostamente dúbios” da área estética.

Impacto das artes – Paradoxalmente, muitas vezes só as artes permanecem como testemunho concreto de uma mentalidade cristã em determinada época. Quando todos os sermões forem pregados, quando todos os debates se encerrarem e a vida das pessoas não mais for notada, as artes – incluindo literatura, escultura e pintura – permanecerão como um testemunho contínuo da crença do povo e do tempo em que foram geradas[4]. Os valores nelas investidos serão percebidos por todos. Qual será, porem, o seu testemunho acerca do cristianismo em nossa era? E o que dirá o envolvimento artístico adventista atual as gerações futuras? Será que revelará alguma característica distinta da fé adventista?

De todas as artes, a música é uma das mais utilizadas e praticadas entre os adventistas. Embora Ellen White não tenha escrito prolificamente sobre esta arte, como escreveu sobre saúde, ela deixou claro que reconhecia sua importância e seu impacto sobre o estilo de vida e a espiritualidade. Consideremos apenas duas citações de seus escritos a respeito da música.

“Ele [Satanás] atua através dos meios que mais forte influência exerçam para manter o maior numero possível numa aprazível absorção, enquanto se acham paralisados por seu poder. Quando empregada para fins bons, a música é uma benção; mas é muita vezes usada como um dos mais atrativos instrumentos de Satanás para enredar pessoas[5]”.

“Fazia-se com que a música servisse a um santo propósito, a fim de erguer os pensamentos àquilo que é puro, nobre e edificante, e despertar na alma devoção e gratidão para com Deus. Que contraste entre o antigo costume, e os usos a que muitas vezes é a música hoje dedicada!… O amor pela música leva os incautos a unir-se com os amantes do mundo nas reuniões de diversões aonde Deus proibiu a Seus filhos irem. Assim aquilo que é uma grande benção quando é devidamente usado, torna-se um dos mais bem-sucedidos fatores pelos quais Satanás distrai a mente, do dever e da contemplação das coisas eternas[6].”

Estas duas citações assumem significado todo especial à luz de recentes pesquisas sociológicas sobre a arte musical, e criam campo para uma franca e séria consideração sobre esta área.

Música popular: força unificadora ? Em meados da década de 80, Bob Geldorf organizou seu programa “Life-Aid”, através do qual famosos músicos populares se uniam para apresentar um concerto espetacular com o fim de arrecadar fundos para vítimas da fome na Etiópia. Transmitido via satélite, o empreendimento despertou interesse mundial tão amplo que os sociólogos começaram a explorá-lo como um fenômeno. Conversas sobre uma “formação social mundial” e a possibilidade de uma “estratégia para moralização global[7]” já não eram mais consideradas um invento da imaginação especulativa. Devido à sua disponibilidade e aceitação universal, a música popular foi identificada como “o mais importante ponto de união para a formação de uma cultura jovem internacional… baseada em gostos e valores comuns no mundo inteiro[8]”. Ao descrever a música popular como uma “poderosa força de ligação”, tornou-se evidente a preocupação com o fato de que “o grande consumo de músicas internacionalizadas, a maioria delas de origem anglo-americana, podem estar levando os jovens do mundo inteiro a identificar-se mais com a música globalizada e conseqüentemente com o estilo de vida e valores de outras sociedades que não os da própria cultura[9]”.

Embora um estudo posterior tenha descoberto que as culturas locais continuam a produzir sua própria música e que a homogeneização musical mundial não é de modo algum um fato consumado, certos fatos assombrosos foram destacados:

1. A música popular de todos os países está sendo moldada por forças internacionais, tais como capital e tecnologia multinacionais, e normas e valores populares globais. Em 1995, o etnomusicólogo Bruno Nettl fez a seguinte observação: “Se há qualquer tendência no mundo da música que possa justificar o temor da homogeneização musical, ela deveria estar no âmbito da música popular[10].” Em 1989, Simon Frith, preeminente erudito da cultura da música popular, concluiu: “Até mesmo os sons mais nacionalistas – canções folclóricas cuidadosamente cultivadas, um furioso punk em dialeto local, dança tradicional (para turistas) – são todos determinados pela crítica do entretenimento nacional. Nenhum país do mundo deixa de ser afetado pelo modo como a mídia das massas do século vinte… desenvolveu uma estética popular universal[11].”

2. Obteve-se significativa sincronização global com um único padrão cultural por meio da música popular. Comentando sobre isso, Cees Hamelink observou com pesar: “Nunca antes o processo de influência cultural avançou de maneira tão sutil, sem qualquer derramamento de sangue, a ponto de a cultura que a recebeu achar que ela procurou tal influência cultural[12].”

3. A indústria global da musica, isto é, a seleção, gravação, promoção e venda de todas as categorias de música, está em grande parte nas mãos de entidades específicas – RCA (agora fazendo parte da BMG, fundida com a Ariola), Sony/CBS, Time Warner, EMI e Polygram[13].

4. É indiscutível o domínio do “Ocidente contra o restante” na promoção e distribuição de música popular internacionalizada[14].

5. A promoção e a distribuição em grande escala tanto de música clássica como popular pela indústria da música, adaptam os ouvidos do mundo inteiro para formas musicais especificas[15].

6. A música popular é reconhecida como força poderosa e unificadora. É considerada como um importante componente no processo de integração global na luta pela ordem planetária. Em suma, os sociólogos crêem que a música popular de hoje proporciona “um dos meios em potencial para a apropriação e conquista da vida diária[16]”.

Tendências da música moderna – Crendo que vivemos no fim da contagem regressiva do grande conflito, pode parecer ridículo não investigar a possibilidade de haver algum significado escatológico nesses movimentos – talvez até alguma manobra magistral.

Como adventistas, cremos que as histórias do livro de Daniel não devem meramente ser usadas nas divisões de Escola Sabatina dos menores. Pelo contrário, elas são chaves significativas que nos ajudam a compreender o grande esquema profético. A história dos três corajosos jovens hebreus, por exemplo, que se recusaram a inclinar-se diante da imagem de ouro de Nabucodonosor (Daniel 3), é uma preciosa ilustração do que acontecerá um dia em escala global, quando ao mundo inteiro for ordenado adorar a imagem da besta sob pena de morte. Eis aí uma miniatura do tempo em que o Estado e a Religião se unirão para forçar os “pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos” a receberem a marca da besta ou serem condenados à morte.

Você se lembra da história, não é? A imagem de ouro no campo de Dura, a fornalha de fogo ardente preparada para os desleais, o rei Nabucodonosor completamente armado esperando impaciente a homenagem de milhares dentre todas as nações que se encontravam diante dele. Chega o momento de adoração, mas o fenômeno que prepara, organiza e une a vasta multidão nesse ato de falsa adoração não é um anúncio feito pelo rei ou palavras bem escolhidas, mas “a música”. Quando a música soasse, todos deveriam prostrar-se.

Esta não é a primeira vez, nas Escrituras, que se faz uma ligação entre falsa adoração e música. Nos campos de Moabe, por exemplo, nas fronteiras da Terra Prometida, Israel foi enredado em terrível apostasia pela influência de música e dança[17]. O povo de Deus foi seduzido a prostrar-se e participar da adoração pagã – algo que haviam rejeitado intelectualmente e que poderiam ter resistido em diferentes circunstâncias.

A influência da música tanto sobre indivíduos quanto sobre grupos é marcante. Ao estudar a música em diferentes culturas ao redor do mundo, Alan P. Merram observou: “A importância da música, a julgar por sua pura onipresença é enorme. (…) Provavelmente não exista outra atividade cultural do ser humano que seja tão penetrante e que alcance o íntimo, modele e controle tanto o comportamento humano[18]”.

Em termos mais específicos, o psicólogo Oliver Sacks escreveu: “O poder da música… é da maior importância prática e teórica. (…) O que vemos, basicamente, é o poder da música para organizar – e fazer isso de maneira eficaz… quando outras formas abstratas ou esquemáticas de organização falham. Na verdade, o poder da música é especialmente dramático, como se pode imaginar, quando nenhuma outra forma de organização funciona[19]”.

Parece evidente que a fim de unir socialmente todas as nações para seu engano final, nosso arquiinimigo não pode depender unicamente de ideologias políticas, acordos econômicos e mesmo de interpretações teológicas. Pode ser que ele esteja cuidadosamente planejando e desenvolvendo um “aderente social” em forma de música, algo que propicie condições para unir e organizar socialmente os habitantes do mundo – comprimindo-os em um molde[20] – para o ato final de adoração, assim como fez em escala reduzida há 2.500 na antiga Babilônia.

Em 1835, em um manifesto visionário sobre a música religiosa do futuro, Franz Liszt, músico ocidental de renome e líder do pensamento musical, convidou a arte para deixar os recintos da igreja e procurar um palco para suas magníficas manifestações no mundo externo. Ele pressupôs uma nova “música humanista” que “englobaria tanto o teatro quanto a igreja” e finalmente permitiria que “todas as classes de pessoas” se “unissem em um sentimento comum religioso, grandioso e sublime”. Ele ansiava pelo dia em que a arte “se ergueria às mais elevadas alturas unido toda a raça humana em prodigioso enlevo[21]”. Atualmente, os sociólogos reconhecem que a música é o único fator social do seu tipo, conhecido por ser capaz de unir pessoas de todas as nações e dos mais diversos antecedentes em interesse e compromisso comuns.

Além disso, como líder etnomusicólogo, David McAllester salientou que a música parece “ser o mais claro reforço de identidade que temos[22]”. Será que, ao se promover um estilo musical global homogeneizado – estilo cada vez mais visível na cultural musical cristã – não estaria sendo preparado um palco para uma reação de identidade religiosa global? Tal reação permitira que pessoas de todas as nações, de todos os antecedentes religiosos, viessem a dizer: “Sim, esta é a minha música, assim sou eu… esta é a minha música pelo fato de ela me tornar feliz e religioso, e sou parte dela; agora me sinto em casa[23]”.

Será que, ao soar a música – quando o mundo inteiro estiver reunido no campo de Dura apocalíptico – será mais fácil nos rendermos àquela quase dominante tentação da falsa adoração, por termos absorvido os padrões de música do mundo em vez de apresentarmos um singular e oportuno testemunho estético agora? Será que por deixarmos a música num plano secundário em nossa teoria e pensamento, nossa nota final não venha ser o Cântico novo, o cântico de Moisés e do Cordeiro, como havíamos esperado?


Notas:

[*]Os editores do Música Sacra e Adoração agradecem à Loide Simon por esta contribuição. Agradecem também à Suely Eugênia pela digitalização do artigo.

[1]Roger L. Dudley e V. Bailey Gillespie, Voluegenesis: Faith in the Balance (La Sierra University Press, 1992), pág. 148.

[2]Idem, pág. 149.

[3]Idem, pág. 163.

[4]H. R. Rookmaker, Art Needs No Justification (Downers Grove, Il: InterVarsity Press, 1978), pág. 20.

[5]Ellen G. White, Testemunhos para a igreja, vol.1, pág. 506.

[6]Ellen G. White, Patriarcas e profetas, pág. 594.

[7]Deanna Campbell Robinson, “Youth and Popular Music: A Theoretical Rationale for en International Study”, Gazette: Internacional journal for Mass Communication Studies 37 (1900), 41 a 49.

[8]Deanna Campbell Robinson et. Al., Music at the Margins: Popular Music and Global Cultural Diversity (London: Sage Publications, 1991), X – XI.

[9]Ibidem.

[10]Bruno Netti, The Western impact on word Music: Change, Adaption and Survival (New York: Schimer, 1985), pág. 85.

[11]Simon Frith, ed., Word Music, Politics and Social Change (Manchester, England: Manchester University Press, 1989), pág. 2.

[12]Cees Hamelink, Cultural Autonomy in Global Communications: Planning National Information Policy (New York: Longman, 1983), pág. 4.

[13]Robinson et. al., Music at the Margins, pág. 42 e 43.

[14]Idem, pág. 17.

[15]Idem, pág. 240.

[16]Lan Chambers, “Some Critical Tracks”, Popular Music 2 (1996): 19.

[17]White, Patriarcas e Profetas, pág. 454.

[18]Allan P. Merrian, The Anthropology of Music (Evanston, N: Northwestern University Press, 1964), pág. 218.

[19]Citado em Andrews Stiller, “Towards a Biologi of Music”, Opus (agosto de 1987): 12 – 14.

[20]Compare com Romanos 12:2 na versão de Phillips.

[21]Franz Liszt, “Religious Music of the future”, em An Artist’s Journey: Lettires d’unbacheller es musique 1835 – 1841, por Frnz Liszt, trans. and annolaled by Charles Suttoni (Chicagoand London: University al Chicago Press, 1989), 236 e 237; e Mark Bangert, “Church Music History, Classic and Romantic”, em Key Words in Church Music Definition Essays on Concepts, Practices and Movements of Thought in Church Music, ed Carl Schalk (St. Louis, MO; Concordia Publising House, 1978), pág. 132 e 133.

[22]David P. McAllester, “Music as Ecumenical Force”, The Australian Journal of Music Education, 27 (outubro de 1980): 10.

[23]Paráfrase de declaração de Alan Lomax citada em Ibidem, pág. 10.


Fonte: Revista Adventista, agosto 2000, pp. 12-14.