Então, Adorai!

por: Marco Aurélio Brasil Lima

Repare nas seguintes cenas:
1 – Noé e sua família constroem um altar depois de sair da arca.
2 – O povo de Israel, de roupas lavadas e em silêncio sepulcral se achegam aos pés do monte Sinai, onde relâmpagos cortam o ar, uma fumaça sobe, ouve-se um estridente sonido e um tremor no chão.
3 – alguma semanas mais tarde, o mesmo povo adora um bezerro de ouro em meio a bebedeira e orgia.
4 – Salomão inaugura o novo templo com uma grande festa, música, e a glória de Deus enche o prédio.
5 – Ezequiel vê, ao lado do templo, mulheres chorando por um deus pagão, enquanto que na frente da porta principal vinte e cinco sacerdotes dão as costas ao templo para adorar o deus sol.
6 – Elias ora no deserto.
7 – Os discípulos no cenáculo pós-ressurreição recebem a visita de Jesus.
8 – Os discípulos comemoram a santa ceia.
9 – A sua igreja, reunida em culto.
10 – Um culto show pentecostal.

Esse vôo panorâmico dá muito pano pra manga, mas gostaria que você notasse que o ponto que está presente em todas essas cenas é adoração. Seja ela genuína ou não, correta ou não, a Deus ou não, todas essas pessoas estão orando, coletiva ou individualmente.

Quando o primeiro anjo de Apocalipse 14 chama a atenção do mundo todo pedindo “Temam a Deus e dêem-Lhe glória… adorai Aquele que fez os céus, os mares e as fontes das águas”, está enfatizando o papel crucial da adoração e mostrando a estratégia do erro. Satanás quer que paremos de adorar ao Deus Criador, a ponto de Deus, através de Seu anjo, pedir ao mundo que volte à adoração.

Jesus dizia “quem comigo não ajunta, espalha”. Podemos aplicar esse princípio dizendo: quem não me adora, adora ao diabo.

Por favor, não imagine um Deus hedonista que quer adoração “porque sim”. Precisamos adorá-lO, porque Ele merece ser adorado! Seus atributos personalíssimos fazem com que a adoração de todos os seres criados por Ele seja justa!

E quando Ele escolheu um povo para Lhe ser possessão peculiar, no caso, o povo de Israel, institui formas de adoração coletiva, formas que deveriam ser respeitadas à risca. Cada forma dessa tinha uma lição que deveria incutir no coração do adorador sincero um novo vislumbre do caráter do Criador, e assim, transformar o próprio adorador à Sua imagem e semelhança, pois, como dizia Goethe, “somos moldados por aquilo que amamos”.

Há hoje os que enfatizam apenas a adoração particular, enfraquecendo o papel importante que adoração coletiva deve ter. Para esses, ir à igreja, se não é inútil, serve para “ver o que está acontecendo”. Se alguém canta e ele acha bonito, diz “amém” ao fim. Se ele ouve um sermão e acha bonito, diz “amém” ao fim. Assim, como quem bate palmas depois de ter ouvido uma boa exibição de sapateado, ou uma bela música num show de mpb. O “amém” sai quase como uma remuneração pelos “bons serviços prestados”. Para esses, o canto congregacional não tem muito sentido. É simplesmente a hora de todo mundo cantar junto, porque assim tem que ser, antes da oração de joelhos. Não se pensa na letra. E durante a oração, o momento em que o orador respira entre uma frase e outra é o momento de soltar um outro “amém”, independente do que esteja sendo falado.

Daí, do mero formalismo ôco, até a perversão completa da adoração que vimos em algumas das cenas acima, é uma questão de tempo. Quando a forma toma o lugar do sentido, estamos em risco duplo: o de perdermos completamente a noção de adoração e a de, buscando reformar esse estado de coisas, acabarmos com a forma, que não é ruim em si.

É importante que as pessoas entendam que culto não se assiste; culto se presta. Todos juntos! Enquanto o solista canta algo com que você concorda, algo que você já presenciou, ou uma esperança que é tua também, você ora a Deus com toda a tua alma e diz “obrigado por isso, Senhor”, em pensamento, ou então “amém”. Quando alguém louva, você faz o louvor dele seu também. Enquanto alguém ora, você faz da oração dele a tua também. Enquanto alguém prega, você faz da mensagem dele a mensagem de Deus para você e conversa com seu interlocutor em pensamento.

A “evolução” do culto tem feito dele cada vez mais um show, onde você é apenas expectador. Não deixe que a adoração coletiva seja menosprezada na tua vida. Faça-a real e pulsante. Porque nosso Deus merece e porque isso nos melhora.