Cultos Biblicamente Relevantes

por: Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho[*]

O que significa, exatamente, cultos biblicamente relevantes?

Não estamos falando apenas de cultos relevantes, mas “biblicamente relevantes”. O “biblicamente” faz diferença. A relevância de muitos cultos tem sido buscada no seu significado para as pessoas. Vivemos numa época antropocêntrica em que o homem passa a ser o referencial e o fio de prumo de quase tudo. Até mesmo o culto é medido pelo impacto que causou nas pessoas, se lhes foi agradável e se elas se sentiram bem. Tudo é planejado para que as pessoas queiram voltar. Estas coisas são boas, mas não são o cerne do culto. Sua relevância não pode se medir por como as pessoas se sentiram. Pessoas de coração duro, sem desejo de compromisso com Deus, querendo apenas promessas, podem se sentir bem em um culto que apazigúe seus corações. Mas talvez estejam precisando ser incomodadas! Se uma pessoa está longe de Deus ou em desacordo com sua vontade e se sente bem em um culto, este pode ter sido significativo para ela. Até mesmo relevante porque a fez sentir-se bem, confirmando seu estilo de vida. Mas foi biblicamente relevante?

Sabemos que o culto tem uma dimensão horizontal, ou seja, deve alcançar as pessoas. Mas a questão deve ser enfocada a partir daqui: para quem é o culto? Depois, qual o propósito do culto? Em terceiro: quais os elementos constituintes do culto biblicamente relevante? E por fim: qual a estrutura do culto biblicamente relevante?

Estas perguntas nos nortearão na busca das respostas às perguntas: “O que são cultos biblicamente relevantes? Como ter cultos biblicamente relevantes?”. Comecemos pela primeira resposta: para quem é o culto? Mas antes definamos o que é culto. Por dedução, consideremos culto a partir de uma definição de “cultuar” encontrada em um documento da Convenção Batista Brasileira:

Os batistas brasileiros, em resumo, acreditam que cultuar é vivificar a consciência pela Santidade de Deus; nutrir a mente com a verdade de Deus; purificar a imaginação pela beleza de Deus; abrir o coração ao amor de Deus; e dedicar a vontade ao propósito de Deus. [1]

Troque o verbo “cultuar” pelo substantivo “culto” e os verbos vivificar, nutrir, purificar, abrir e dedicar por substantivos deles derivados. Aí estará uma definição de culto da Convenção Batista Brasileira. Não a única definição, mas uma definição bem expressiva.

1. Para Quem é o Culto?

Sabemos que o culto tem uma dimensão horizontal que não pode ser negada. Mas sua primeira dimensão é vertical. O culto é para Deus. Tal afirmação é óbvia, acaciana até. Mas tem sido olvidada e não pode sê-lo. A observação de Paul Plew precisa ser ponderada:

Temos sido influenciados por uma cultura pop que dita nossa atitude até no culto, onde prevalecem o entretenimento e a auto-satisfação individual, e onde termina havendo um mal-entendido sobre qual é o verdadeiro significado da adoração, quem está envolvido, quem é a platéia, quais responsabilidades existem e quem recebe a glória. [2]

A maior relevância do culto, biblicamente falando, está no seu destinatário correto: Deus. Nossos cultos devem visar Deus, sua glória, exaltar seu nome, agradecer pelo seu amor e proteção, proclamar seus feitos, anunciar suas grandezas. Vários salmos podem ser aduzidos aqui. Mas o Salmo 145 é uma feliz síntese de todos os demais salmos no tocante às motivações para louvar a Deus, cultuando seu nome. Eis seu texto, na Nova Versão Internacional:

“Um cântico de louvor. Davídico. Eu te exaltarei, meu Deus e meu rei; bendirei o teu nome para todo o sempre! Todos os dias te bendirei e louvarei o teu nome para todo o sempre! Grande é o SENHOR e digno de ser louvado; sua grandeza não tem limites. Uma geração contará à outra a grandiosidade dos teus feitos; eles anunciarão os teus atos poderosos. Proclamarão o glorioso esplendor da tua majestade, e meditarei nas maravilhas que fazes. Anunciarão o poder dos teus feitos temíveis, e eu falarei das tuas grandes obras. Comemorarão a tua imensa bondade e celebrarão a tua justiça. O SENHOR é misericordioso e compassivo, paciente e transbordante de amor. O SENHOR é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas. Rendam-te graças todas as tuas criaturas, SENHOR, e os teus fiéis te bendigam. Eles anunciarão a glória do teu reino e falarão do teu poder, para que todos saibam dos teus feitos poderosos e do glorioso esplendor do teu reino. O teu reino é reino eterno, e o teu domínio permanece de geração em geração. O SENHOR é fiel em todas as suas promessas e é bondoso em tudo o que faz. O SENHOR ampara todos os que caem e levanta todos os que estão prostrados. Os olhos de todos estão voltados para ti, e tu lhes dás o alimento no devido tempo. Abres a tua mão e satisfazes os desejos de todos os seres vivos. O SENHOR é justo em todos os seus caminhos e é bondoso em tudo o que faz. O SENHOR está perto de todos os que o invocam, de todos os que o invocam com sinceridade. Ele realiza os desejos daqueles que o temem; ouve-os gritar por socorro e os salva. O SENHOR cuida de todos os que o amam, mas a todos os ímpios destruirá. Com meus lábios louvarei o SENHOR. Que todo ser vivo bendiga o seu santo nome para todo o sempre!”.

A primeira preocupação do salmista é com Deus. Depois, com os participantes do culto. Quando preparamos uma ordem de culto ou até mesmo um sermão, qual nosso primeiro foco? Como as pessoas reagirão ou como Deus reagirá? Mesmo sabendo, reafirmo, da dimensão horizontal do culto, que ele é usado para proclamar o evangelho de Jesus, o nosso primeiro olhar no culto deve ser na direção de Deus. Se Deus for glorificado as pessoas serão alcançadas pelo poder de Deus. A vida de Isaías foi impactada porque ele viu a glória de Deus (Isaías 6.1-4).

O culto biblicamente relevante põe o foco em Deus. É justo querer alcançar as pessoas com o culto. Queremos a consolação e a edificação do povo de Deus. Queremos a conversão de pecadores. Mas devemos, primeiro, honrar e glorificar a Deus. Isto não é retórica. É questão de prioridade e de método. Deus abençoa o que o glorifica. Devemos evitar a tentação em que muitos incorrem de desejar fazer o papel do Espírito Santo, isto é, produzir emoções nas pessoas.

Que o culto seja voltado para a glória de Deus, que o honre, que o exalte, que levante bem alto o nome de Jesus. Este é o culto em espírito e em verdade, o que parte do íntimo do adorador e que independe de geografia (em que monte?) bem como de manipuladores. O Espírito Santo aplica este culto aos corações presentes.

2. Qual o Propósito do Culto?

No Salmo 145 vimos que o propósito primeiro do culto é glorificar a Deus. Esta linha surge em vários salmos. Um propósito segundo é proclamar Deus aos homens. Esta verdade também aparece em vários salmos, em momentos que o salmista, após louvar a Deus, se dirige aos fiéis. Isto também se vê no Salmo 145, onde após focar o alvo em Deus, lentamente o salmista começa a falar de outras pessoas. E conclui com esta frase: “Que todo ser vivo bendiga o seu santo nome para todo o sempre”.

O culto também proclama o evangelho. O primeiro culto público da igreja primitiva terminou com a conversão de 3.000 pessoas (Atos 2.37-41). Não se pode pensar num culto intimista voltado unicamente para a igreja. Nas instruções sobre o culto, Paulo deixa claro que ele serve também para a conversão de incrédulos (I Coríntios 14.22-25). Paulo mesmo realizou cultos que redundaram em conversões e batismos (Atos 18.7-8).

O culto também edifica. Isto se vê em Atos 14.21-27. A idéia de cultos públicos não está implicitamente declarada, mas é obviamente pressuposta. Do ponto de vista prático, poucas coisas edificam mais uma igreja do que ver conversões, pessoas indo à frente aceitando Jesus como Salvador e depois descendo às águas batismais. Isto fortalece em muito a vida de uma igreja. Ou seja, a conversão de perdidos glorifica a Deus e edifica a fé dos crentes.

Neste sentido, o culto tem o que chamamos de dimensão horizontal. Ele edifica a igreja e é instrumento usado pelo Espírito Santo para a conversão de pecadores. O propósito do culto tem um tríplice aspecto. Glorifica a Deus, edifica os crentes e serve de anúncio da salvação aos perdidos.

Mas esta dimensão horizontal precisa ser bem explicitada. Não podemos confundir o ato de culto, a celebração, com entretenimento. Entretenimento é diversão, serve para afastar tédio e alegrar a pessoa. Eis uma boa observação do Rev. Arival Casimiro:

O “tédio religioso” sempre foi um dos maiores inimigos do cristão, no que se refere à sua vida espiritual. O tédio é um estado mental resultante do esforço para manter interesse por uma coisa pela qual não temos o mínimo interesse. Por exemplo: participar de uma escola dominical, quando nosso desejo era estar na praia. Este fato tem levado a Igreja, em nossos dias, a oferecer certos atrativos ao povo, no que tange ao culto. “Em muitos lugares raramente é possível ir a uma reunião cuja única atração seja Deus. Só se pode concluir que os filhos de Deus estão entediados dele, pois é preciso mimá-los com pirulitos e balinhas na forma de filmes religiosos, jogos e refrescos” (A. W. Tozer). [3]

Nesta mesma linha eis um oportuno comentário de Leila Gusmão e Westh Ney, no excelente Culto cristão – contemplação e comunhão:

Culto é a celebração do acontecimento mais dramático da humanidade! Como alguém tão justo, digno, puro e sem mancha pôde ser imolado por nós, pecadores? Como pôde sofrer morte aviltante, escárnio e dor? Sua história é uma história de amor e dificílima de ser compreendida por ser ele o Cordeiro de Deus, que por sua imensurável graça e amor se doou por nós e por todos que ainda virão. O drama do Calvário não pode ser esquecido. Cada culto é um trazer à memória o que nos traz vida e esperança. [4]

O culto deve nos relembrar o amor de Deus, a graça de Jesus e o poder do Espírito Santo. Culto não é catarse, o ato de por emoções para fora. Leila e Westh Ney foram felicíssimas: “Culto é a celebração do acontecimento mais dramático da humanidade”. Relembra-nos os atos de Deus e faz-nos refletir sobre seus efeitos em nossa vida. O foco do culto é a Divindade. E cada culto deve rememorar o Calvário!

3. Quais os Elementos Constituintes do Culto Biblicamente Relevante?

Os elementos constituintes do culto biblicamente relevante podem variar conforme o lugar, a cultura da igreja, suas possibilidades, etc. Mas olhemos o ensino bíblico que deve nortear a vida da igreja. Em Atos 2.42 lemos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”. Eis um excelente comentário sobre o texto:

Este é o resumo dos elementos essenciais no discipulado cristão. Eram elementos que os apóstolos haviam aprendido de sua experiência com Jesus: seu ensinamento a respeito de sua pessoa e obra (Mateus 16.18-19; Lucas 24.26) e sobre a responsabilidade deles como seus seguidores (Mateus 5-7), a comunhão de Cristo com seus discípulos (João 13), a Ceia do Senhor – o partir do pão (Mateus 26.17-30) – e sua vida de oração pelos discípulos e com eles (Mateus 6.5-13; Lucas 11.1-13; João 17).[5]

Tendo Cristo como o tema central, o culto se constituía de orações, pregação e celebração da ceia. Os cânticos não eram estranhos à prática dos cristãos até mesmo porque o Salvador cantou um hino com os discípulos (Mateus 26.30), que tem sido identificado com o Hillel (Salmos 113-118), cantado por ocasião da ceia de páscoa. Os textos de Efésios 5.19 e Colossenses 3.16 mostram que o cântico de hinos, cânticos e salmos faziam parte da liturgia cristã. A prática de louvar a Deus com cânticos está tão enraizada na experiência do povo de Deus que o Apocalipse traz vários cânticos do povo de Deus na glória, bem como de entidades espirituais. Hinos fazem parte dos elementos constituintes do culto cristão. E hinos de bom conteúdo comunicam a teologia da igreja, que é seu suporte espiritual.

A pregação é central no culto. O pessoal da música fica melindrado quando alguém diz que na hora da pregação se chegou ao momento mais importante do culto. Sente-se como se tivesse sido atacado e alega que tal declaração soa como se nada que foi feito antes tivesse valor. Não é o que se diz quando se pronuncia tal frase, aliás, desnecessária. Mas a pregação é mesmo o elemento central do culto. Jesus não disse “Ide e louvai” nem “Ide e cantai”. Disse “Ide e pregai”. E embora saibamos que o evangelho pode ser pregado pela música, o que está em foco é a pregação como pregação. Basta entender o conceito cultural daquela época para se saber que “pregar” tem o sentido de proclamação verbal da Palavra. E o verbo grego empregado em Marcos 16.15 tem o sentido de uma proclamação verbal, como um arauto. Qualquer outra interpretação é um valor que atribuímos ao significado que a palavra tinha quando empregada na ocasião.

Desta maneira a pregação bíblica faz parte do culto biblicamente relevante. E o ensino da Palavra deve ser central no culto. Gostem ou não as pessoas de outras áreas, é este o momento climáxico do culto. Toda a autoridade do culto vem do Espírito Santo, autor último da Palavra (II Pedro 1.21). E o ensino bíblico é que dá ao culto um caráter de comunicação divina, porque Deus revelou suas palavras na Bíblia e nos ensina através da Bíblia. É muito significativa esta observação de Swindol:

Quantas vezes temos ouvido Billy Graham dizer: “A Bíblia diz”, “a Bíblia diz”, “a Bíblia diz”?. Por todo o mundo ele tem estado a anunciar: “A Bíblia diz”. E é aí que se encontra a autoridade do evangelista.[6]

Mas não é apenas a autoridade do evangelista. É também a autoridade do culto. Ele não pode ser um blábláblá humano, mas sim a proclamação dos atos de Deus e o anúncio da Palavra de Deus. No culto biblicamente relevante a Palavra de Deus é ensinada. Infelizmente, insights humanos, pseudas revelações, tagarelice humana, algazarra sonora, tudo isto tem se constituído como o arcabouço do culto contemporâneo. Muito culto é apenas, com perdão pela palavra pouco elegante, “enrolação” espiritual. Um monte de partes sem nexo, em que pessoas se agitam e se exibem, mas quando se busca compreender o que foi dito ou ensinado, fica-se em dúvida. O foco do culto deve ser Deus e sua Palavra. Todo o culto deve ser construído sobre os pressupostos de que Deus deve ser glorificado, seus atos devem ser proclamados e sua Palavra ensinada. Cultos em que o homem aparece mais que Deus, no deprimente culto à personalidade que se vê hoje em dia, se constituem em blasfêmia. O culto biblicamente relevante não tem o homem eminente, e sim Deus. “Esconde o teu servo atrás da cruz de Cristo”, uma antiga oração dos crentes quando intercediam pelo pregador, deve ser restaurada. Cânticos, leituras, pregação, bem como qualquer apresentação devem glorificar a Deus. E isto não pode ser uma oraçãozinha pró-forma, pronunciada mais para desculpar e dar a impressão de que o homem não quer aparecer, mas no final tudo exalta o homem.

Conforme a cultura local, haverá mais elementos além de cânticos (individuais, comunitários ou por grupo), leituras e pregação. Mas um cuidado deve ser tomado. Vivemos num mundo sensual (dos sentidos), mais que da reflexão. Assim o culto tem apelado muito para a movimentação corpórea, bem mais que para o espiritual. Há cultos com “trenzinhos”, com pessoas fazendo fila, segurando-se na cintura da outra e dançando, etc. A coreografia virou moda. A este autor, particularmente, não agrada e não lhe parece um ato de culto. Não está disposto a discutir a questão, porque não abre mão de seu ponto de vista. Mas os que gostam, tomem cuidado. Muita coreografia, e isto é dito sem maldade e sem exagero, se assemelha à dança do ventre. Já preguei em cultos em que durante a coreografia não sabia como me portar, pela profusão de umbigos à mostra. Cabem aqui as palavras de Paulo, em I Coríntios 14.40: “Mas tudo deve ser feito com decência e ordem”.

Carecemos de muita cautela nesta questão. O copismo é muito forte em nosso meio. Alguém começa a fazer algo e logo outros imitam, sem qualquer senso crítico. A questão não é se outros estão fazendo, se é bonito, ou se nos agrada. A questão é: realmente glorifica a Deus? Realmente promove seu reino? E, já que o aspecto humano está sendo considerado: une a igreja no momento do culto ou apenas satisfaz à necessidade de novidades em nosso meio? Porque o culto não pode fracionar o povo de Deus, e sim reuni-lo em torno da Palavra e da cruz. O orgulho humano nos cultos tem machucado e dividido algumas comunidades porque as pessoas querem louvar a Deus do seu jeito. O culto público é da igreja como um todo, não de uma parte ou de um grupo de artistas, por isso o elemento constituinte mais forte do culto é o amor cristão, que deve se evidenciar no respeito aos demais. Muitas práticas litúrgicas desunem mais que unem, mas o “clero litúrgico” decidiu que Deus deu aquela visão que é assim é empurrada sobre os outros. A igreja se divide e muitos se afastam, mas a vontade de alguns prevaleceu. O amor é a argamassa que une todo o culto. Ele é para Deus, primeiro, e para alimentar o povo de Deus, secundariamente. Depois, deve proclamar ao mundo. Mas uma igreja dividida e machucada pelo culto não pode proclamar nada. Por isso, repito: entre todos os elementos do culto biblicamente relevante, o amor é o mais forte.

4. Qual a Estrutura do Culto Biblicamente Relevante?

Surpreende-me que algumas pessoas vejam a confecção de uma ordem de culto como mundanismo ou engessamento do Espírito Santo. Um obreiro, obviamente bem intencionado, mas bastante confuso, escreveu-me dizendo que em sua igreja não havia “esse negócio de ordem de culto”, porque isso limitava o Espírito Santo. Na igreja dele, o Espírito era livre para conduzir o culto como quisesse. Eu disse que na minha o Espírito era livre para agir antes do culto, trabalhando em nossas vidas e orientando-nos para confeccionar uma ordem de culto com nexo. Não o limitávamos ao momento do culto, mas à toda a vida da igreja. Ele agia antes do culto também, e não apenas no momento do culto.

Será que o Espírito só age no meio do improviso? Será que ele não age na mente de pessoas submissas que o buscam em oração, quando preparam uma ordem de culto? Muita gente confunde inspiração do Espírito com possessão. Como se a pessoa ficasse possessa pelo Espírito e aí não soubesse o que diz nem o que fala. Isto é uma superespiritualidade que resvala para a ingenuidade e vê a razão com desconfiança. Parece-me mais usado por pessoas com dificuldades de usar o raciocínio ou com medo dele. O culto biblicamente relevante precisa de uma estrutura. Que pode ser simples, mas oriente a congregação: o que está sendo dito? Que ensino bíblico se deseja transmitir? Com uma estrutura, mínima que seja, bem elaborada, evita-se o que se vê em muitos lugares: canta-se um hino de páscoa, faz-se um solo sobre o natal, recita-se uma poesia sobre a parábola das virgens e um quarteto canta sobre a volta de Jesus. Aí o pregador prega sobre o dia das mães. Se o culto é um todo, o que se ensinou? Deus pode tê-lo aceitado. Mas em sua dimensão horizontal, o que transmitiu?

Uma ordem de culto com sentido e um com um fio condutor unindo todas as partes é um poderoso instrumento de comunicação da verdade divina. Não apenas porque todas as partes têm sentido, mas porque o culto passa a ser uma obra só. Ele registra uma mensagem maior, mostrando mensagens cantadas e pregada, mas ele é uma mensagem. Sua forma traz um ensino. Ele ensina com o conteúdo e com a estrutura.

Do ponto de vista estrutural, o culto deve se mover para frente, de forma dinâmica. As partes devem se ajuntar e caminhar numa progressão, evitando-se aquela impressão de colcha de retalhos. É muito desagradável quando se anuncia um solo, e o solista está lá no último banco, deixa passar alguns segundos, aí se levanta, vem caminhando lentamente, procura o pianista ou alguém do som para lhe entregar um playback, e aí é que vai se acertar o que será cantado. E o que dizer dos instrumentistas que na hora da execução da música vão afinar ou ajustar os instrumentos? Isto “mata” qualquer culto, dando uma impressão de desleixo e de falta de preparo. Além de quebrar um espírito no culto que o Espírito vinha criando.

No livro Uma igreja com propósitos, Warren diz que no culto de sua igreja não há espaço entre uma parte e outra. Elas vão se sucedendo sem deixar hiatos. Diz ele:

Existe muita “hora morta” entre os diferentes elementos da reunião. Quando um ministro de música termina o louvor, ele anda e senta. Quinze segundos depois, o pastor começa a pensar em levantar-se. Finalmente, ele lentamente vai ao púlpito e dá as boas-vindas ao povo. Enquanto isto acontece, os não-crentes já caíram no sono. Trabalhe bastante para minimizar os tempos de transição. Assim que um período de culto acabar, outro deve começar lentamente. [7]

Tenho procurado fazer isto. As partes vão se sucedendo, levando o culto para frente, num movimento de progresso e de proveito, sem lacunas nas quais a atenção dos participantes se perca.

A elaboração de uma estrutura permite ver se a congregação está participando do culto ou apenas assistindo a exibição de artistas espirituais. Se a estrutura foi impressa como ordem de culto, orienta as pessoas para que saibam em que momento do culto estão, o que foi feito, o que virá. E ajuda as pessoas a saberem que hino será cantado. Nem sempre se ouve bem e alguém fica perguntando.

As partes de culto devem ser anunciadas com clareza para que todos saibam o que vai acontecer. Por isso devemos tomar cuidado na enunciação dos itens do culto, evitando palavras mastigadas, que ninguém entende, e o triste hábito do gerundismo: “Vamos estar cantando”, “vamos estar ouvindo”, “vamos estar lendo”. Isto dói e incomoda. É horrível ouvir uma pessoa que fala assim o tempo todo. Evite-se também o “possamos”. “Que possamos estar”, “Que Deus possa nos abençoar” e outros usos do verbo “poder” que evidenciam a dificuldade no uso dos verbos. São expressões erradas que devem ser evitadas. Quem vai dirigir um culto e deseja que ele seja relevante deve se expressar bem. Se não consegue fazê-lo, que estude. Assim como estudamos canto, estudamos instrumentos, estudamos pregação e estudamos a Bíblia, que estudemos nossa ferramenta de comunicação, nosso idioma. Alguém dirá que é ser pernóstico notar estas coisas e que quem vai a um culto deve estar com o coração posto em outros aspectos. Não é correta esta observação. Falar direito não é ser pernóstico. Não querer aprender é que é ser pernóstico. É sinal de desleixo e auto-suficiência. Dirá alguém que isto nada tem a ver com “biblicamente relevante”. Tem. Os tradutores bíblicos nos legaram uma obra bem feita, literariamente, a Bíblia em nosso idioma. O ensino bíblico (e o culto é ensino bíblico) deve ser feito de maneira eficiente. E quem tem atividade de comunicação deve saber fazê-lo. E precisa de humildade para aprender a se aperfeiçoar. Que a preguiça dos crentes não prejudique a condução dos cultos.

Conclusão

O culto biblicamente relevante é teocêntrico, tem a glorificação de Cristo como alvo, a Bíblia como suporte, comunica o amor e o perdão divinos, exorta os crentes a viverem acertadamente e a testemunharem de sua fé. É o culto que, encerrado, as pessoas dizem: “Estive na presença de Deus!”, e não “Foi legal! Me soltei!”. É para Deus, primeiro e acima de tudo.

O culto biblicamente relevante é aquele em que as pessoas dão o melhor de si. Em que os dirigentes buscam aperfeiçoar dons e talentos. É aquele que exerce impacto em nossa vida e é elemento causador de mudanças. Heráclito de Éfeso (540-480 a.C.) foi o filósofo das constantes transformações. Para ele, tudo estava em constante movimento. Dizia ele que não podemos tomar banho duas vezes no mesmo rio. Banhamo-nos, saímos e quando voltamos, o rio já é outro. E nós mesmos já somos outros. O culto biblicamente relevante deve ser assim. Nunca deveríamos ter as mesmas pessoas em dois cultos seguintes. Cada culto deveria efetuar transformações na vida dos participantes de tal maneira que no culto seguinte as pessoas presentes não fossem as mesmas pessoas de antes. Elas teriam sido transformadas. É o progresso espiritual até o “pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem feito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef. 413). O culto biblicamente relevante contribui para isso.

O culto biblicamente relevante é para a glória de Deus e para a transformação de vidas.


Notas Bibliográficas

[1] SANTOS, Jane Borges. “Repensando – a liturgia batista à luz do desenvolvimento eclesiológico e teológico” in FERREIRA, Ebenézer. Repensando a denominação batista. Rio de Janeiro: ABIBET, 1998. Jane Borges Santos está citando o “Livro do Mensageiro – 77ª. Assembléia da Convenção Batista Brasileira, 1996”, às páginas 68-69. (voltar)

[2] PEW, Paul. “Desfrutando música e adoração espiritual” in MACARTHUR JR. (ed.) Pense biblicamente: recuperando a visão cristã de mundo. S. Paulo: Hagnos, 2005, p. 283. (voltar)

[3] CASIMIRO, Arival. “A necessidade de essência do culto” in CASIMIRO (ed.) Adoração e louvor. S. Bárbara d’Oeste: SOCEP, s/d., vol. 1, p. 9. (voltar)

[4] SANTOS, Leila Gusmão e LUZ, Westh Ney. Culto cristão – contemplação e comunhão. Rio de Janeiro: JUERP, 2003, p. 47. (voltar)

[5] Bíblia de Genebra, rodapé in loco (voltar)

[6] SWINDOL, Charles. A noiva de Cristo. S. Paulo: Editora Vida, 1996, p. 85. (voltar)

[7] WARREN, Rick. Uma igreja com propósitos. S. Paulo: Editora Vida, 3ª. ed., 1998, p. 308. (voltar)


Nota dos Editores do Música Sacra e Adoração – O autor, ministro Batista, descreve a realidade em sua denominação, citando exemplos e dando referências que são próprias de seu contexto. Apesar disto, publicamos o texto porque acreditamos que qualquer denominação poderá tirar lições valiosas das reflexões aqui expostas, mesmo que a sua realidade seja ligeiramente diferente da descrita. (topo)


Fonte: http://www.isaltino.com.br