Culto Vivo

A Adoração, Debate Sobre a Música na Igreja 3 de julho de 2012 8:52 pm

por: Vanderlei Dorneles

Movimento de renovação do culto requer atenta consideração

À medida em que nos aproximamos do terceiro milênio, o ateísmo parece sucumbir, enquanto a religião reconquista progressivamente o interesse das pessoas. Uma pesquisa recente constatou que 99% dos brasileiros acreditam em Deus. No ranking do crescimento religioso destacam-se as igrejas ou cultos pentecostais, ao lado de religiões orientais e místicas. Em nosso País a renovação carismática católica saltou de dois milhões para oito milhões de fiéis em apenas nove anos. Os pentecostais eram 51% dos evangélicos brasileiros, em 1980; em 1994 tornaram-se 75%. De 1980 a 1991, os protestantes históricos cresceram 9% contra 117% do crescimento pentecostal.

Esses números servem de referencial para as feições da nova religiosidade. A fé voltou a se expressar de forma espontânea. A liturgia dos cultos “renovados” se manifesta de forma quase infantil e livre da rigidez das normas e da ética. Uma vez “tocado”, o adorador se expressa como quer: ri, chora, bate palmas, rola pelo chão, entra em transe.

A religiosidade atual é descomprometida. Nela, Deus emerge como ser imanente, portanto acessível e tolerante. A Escritura tende a perder sua autoridade normativa, diante da proposta de preservação da cultura e da individualidade do adorador.

Paixões reprimidas

Para explicar o que está ocorrendo nas igrejas cristãs, J. Comblin, no livro O Espírito Santo e a Libertação (Editora Vozes), estabelece um contraste entre o judaísmo, que enfatizava a lei e a disciplina num esforço de reprimir a natureza humana; e a religiosidade pagã, que encoraja a permissividade e apresenta os próprios deuses como expressão dos desejos e das paixões humanas. O cristianismo apostólico rejeitou os dois modelos, estabelecendo o amor e a liberdade em Cristo como fatores de equilíbrio entre os dois extremos. O catolicismo, em matéria de liturgia, reprimiu o lado pagão e incorporou o modelo judaico. Na tentativa de manter sob controle a libertinagem, cerrou a liberdade e eliminou toda e qualquer manifestação emotiva, numa missa em que o adorador era um espectador inerte. O racionalismo, da Era Moderna, endossou a ordem e a ética como comportamento adequado ao ser humano racionalizado. Assim, também reprimiu as emoções e o lado selvagem do ser humano.

Na pós-modernidade, com a ascensão do misticismo, assiste-se a uma reação do pólo pagão. O ser humano parece querer libertar-se do conceito de um Deus santo, das normas da igreja e da imposição da ética, para voltar a ser ele mesmo. Assim desimpedido, o adorador assume sua original e primitiva natureza – pagã. O próprio racionalismo preparou caminho para a ascensão do paganismo ao minar a autoridade da Bíblia com a afirmação da inexistência de Deus.

O francês Claude Duchesneau, em seu livro A Celebração na Vida Cristã (Edições Paulinas), afirma que o Ocidente não é mais uma cristandade e os cristãos voltaram a ser minoria num mundo, outra vez, pagão.

A ascensão do paganismo vem na onda Nova Era, que traz a religiosidade oriental para o Ocidente “pós-cristão”. Esse paganismo moderno encoraja o panteísmo e a autonomia do indivíduo, além de valorizar a cultura primitiva como meio adequado de expressão dos sentimentos religiosos.

Reação

Ao perceber respingos desse fenômeno na igreja, nossa primeira reação é destacar seus sintomas e procurar tratá-los. Os sintomas da “renovação religiosa” são as manifestações exteriores, a saber a música envolvente, a expressão corporal, a excessiva emotividade e o êxtase. As raízes do fenômeno carismático-pentecostal, no entanto, estão além de suas manifestações exteriores.

Qual é, então, o fundamento desse culto? Sem dúvida, sua teologia da Revelação e seu conceito de Deus.

Embora afirmem que Deus é um ser pessoal e que o Espírito Santo não é uma energia, os pentecostais praticam uma liturgia festiva, matéria importada dos cultos afro e indígenas, que mantêm um conceito de Deus como força da Natureza. A relação entre pentecostalismo e cultos africanos e primitivos é assunto discutido pelo antropólogo francês Roger Bastide, na obra As Religiões Africanas no Brasil (Editora Pioneira). No volume 2, à página 510, ele diz: “O desenvolvimento do pentecostalismo no Brasil, fundado na pregação do Espírito Santo, procurando graças exteriores e extraordinárias, e institucionalizando o transe místico, corresponde melhor a um traço cultural africano.” Os pentecostais têm no êxtase o objetivo da liturgia, como previsto na Teologia do Encontro. Esse “encontro”, segundo acreditam, ocorre pelo “arrebatamento em espírito”, falar em línguas, ter visões, etc.

No início do século, Martin Buber, pensador alemão de origem judaica, em seu livro Eu e Tu (Editora Moraes, edição em português), já indicava que o ser humano está interessado em experimentar Deus e não em saber algo acerca dEle. Ora, a uma força se experimenta, a uma pessoa se conhece. Leonardo Boff, católico, falando sobre o lugar da emoção no culto, diz que “acreditar não é pensar em Deus, é sentir Deus”.

Resultante da Teologia do Encontro, a outra base de apoio do pentecostalismo é seu conceito subjetivista da Revelação, que vê as Escrituras como uma coletânea de “experiências com Deus”, capazes de levar os leitores a experimentarem Deus também. O objetivo da Revelação, nesse caso, não é ensinar doutrinas ou conceitos de verdade, mas apenas proporcionar elementos e criar condições para o “encontro”. Com efeito, a pregação e a formulação teológica pentecostais são vazias de conteúdo e ricas em apelos emocionais.

Natural X Espiritual

Há dois tipos de culto: o culto da religião natural e o culto espiritual. O culto natural é uma iniciativa do ser humano que busca erguer-se a Deus, prestar-Lhe homenagem a fim de granjear Seu favor, em face de suas necessidades. Esse culto nasce da propensão humana de buscar apoiar-se no sobrenatural. Nessa tentativa, o ser humano oferece o que, a seu ver, tem de melhor. Como não se baseia numa Revelação objetiva, não tem uma consciência do pecado nem do que Deus aceita ou deseja. É o autêntico culto pagão, já visto na oferta de Caim. Pode incorporar os dois extremos litúrgicos: judaísmo e paganismo. Baseia-se na justificação pelas obras.

Já o culto espiritual celebra a ação de Deus. Nasce da consciência da intervenção divina na História e na ação salvadora de Cristo. Começa, portanto, com Deus. Não é o ser humano tentando subir a Deus, mas resulta do fato de Deus ter descido até nós. Como é resultado da revelação de Deus, surge com a identificação com a Palavra dessa revelação. Como homenageia um Deus que se fez conhecido, a vontade desse Deus e Suas exigências são o seu padrão. Originalmente, a celebração que Deus ensinou a Israel, em substituição aos costumes egípcios, destacava, por meio das cerimônias, o Êxodo e a Aliança, a ação divina.

Devido à ênfase no transe místico e à interpretação da Bíblia como mera coletânea de experiências, a renovação carismática-pentecostal tende a reduzir o culto à uma mera manifestação de um sentimento religioso natural.

Em Romanos 12:1, Paulo apela aos crentes para que apresentem a Deus um culto “espiritual”. (O adjetivo logikos, traduzido por “racional” ou “espiritual”, só aparece no NT uma vez além desta, em I Ped. 2:2, onde é traduzido por “espiritual”). Nesse culto, o “corpo” (expressão da natureza humana) tem um lugar, onde deve se manifestar como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. Essa recomendação, aliada ao conselho de não se “conformar” com o mundo, distingue o culto cristão não pela sua forma, mas pela condição do adorador. O verdadeiro culto não consiste em apresentações feitas segundo os costumes e gostos do adorador, mas numa vida santificada pela Palavra. Este é o ponto mais importante. O culto é a própria vida, na medida em que a fé move o adorador a oferecer-se a Deus como “sacrifício vivo”. As raízes desse culto, portanto, são a consciência da santidade e da graça de Deus, manifestadas em Cristo, em contraste com a pecaminosidade humana, e o reconhecimento da autoridade da Escritura. Esse culto é, portanto, uma resposta à ação salvadora de Deus, por parte de pessoas transformadas pela Palavra.

Se essas raízes forem o objeto da pregação, o culto e a vida serão influenciados por elas. Onde quer que elas forem negligenciadas, aí haverá distorções. Na igreja primitiva, a proclamação da graça e manifestação de Deus em Cristo criou ambiente para um culto singelo, mas distinto das celebrações pagãs.

É inútil dizer aos adoradores como devem se comportar se não estão cientes da santidade e da presença de Deus. Como é inútil dizer que manifestem entusiasmo, se não receberam o impacto da proclamação dos atos de Deus. Se a pregação é humanista, se não fere a Cruz de modo que faça jorrar sangue, se não leva os ouvintes a uma identificação com a Palavra revelada, a reação não será de entusiasmo. Na falta desses elementos, caso se busque manifestação de entusiasmo, por meio de exercícios de motivação artificial ou por música ritmada ou ainda por apelos sensacionais, as emoções se levantarão não consagradas, não orientadas.

Focalizado na Palavra

Tradicionalmente, a Igreja Adventista teve na pregação da Palavra e em sua consciência da verdade o estímulo de sua liturgia. A consciência de que somos um movimento profético alimenta a disposição de obedecer e move o culto a Deus.

Nesse contexto é valida uma ponderação sobre qual tem sido o conteúdo da pregação. Os estudos bíblicos se concentram nos temas que envolvem o plano da salvação, o santuário, o reino de Deus, os atributos divinos, a Lei e a cadeia profética. Já a pregação, em igrejas consolidadas, se constitui de reflexões em torno do perdão, o conforto do Espírito, a comunhão com Cristo, o amor de Deus, a conduta cristã e o dever do testemunho.

O conteúdo dos estudos leva o interessado ao conhecimento da vontade de Deus e do plano da salvação. Abre as perspectivas futuras da ação de Deus por ocasião da volta de Cristo e do estabelecimento de Seu reino. Ao conceituar a vida espiritual sob a perspectiva do reino de Cristo, cria uma consciência de movimento profético, partilhado por pessoas que não pertencem a esta Terra e que servem a um Deus que salva do pecado e que, portanto, o reprova e destruirá.

Por considerar, consciente ou inconscientemente, que a pessoa convertida já não precisa mais do ensino doutrinário, em geral os pregadores seguem outra linha de abordagem. Os temas mais comuns da pregação hoje não mantêm o horizonte profético do reino de Deus, ao contrário disso tratam com as necessidades presentes do membro da igreja. Enfatizam a bondade de Deus e Sua graça, a fim de fortalecer a disposição de obedecer. Por mais bíblica que seja essa pregação, se está focalizada na vida e nas necessidades do crente na Terra, não lhe manterá firme em sua caminhada para o Céu. O horizonte celestial, refletido nas profecias e nas doutrinas, precisa ser mantido diante do povo.

A religião está se movendo do extremo racional para o extremo das emoções, o que caracteriza o retorno do modo pagão de cultuar. Esse movimento atingirá todas as igrejas. É uma marca do próximo século. O extremo pagão só poderá ser evitado, onde se queira substituir a apatia pelo dinamismo, mediante a constante proclamação da completa Palavra de Deus. Essa proclamação segura o pêndulo, evitando o extremo racional e o extremo emotivo.

Emoções na balança

Na visão de religiosos ligados à renovação carismática e ao pentecostalismo, para que o culto cristão contemple a união do adorador com Deus, não bastam as explicações doutrinárias e a teologia. É preciso suscitar uma força interior, mediante a estimulação dos sentimentos.

Daniel Goleman, autor do best seller Inteligência Emocional, afirma que as emoções são parte integrante do ser humano. Conscientes disso, defende o autor, não devemos suscitar as emoções nem reprimi-las. Devemos tomar consciência delas e agir a partir delas, não necessariamente indo na direção que propõem (ver Inteligência Emocional, pág. 65 a 68).

Se estimuladas pela identificação com a Palavra inspirada e pelo senso da presença de um Deus santo, as emoções emergem puras. Se estimuladas artificialmente, elas se expressam segundo o padrão da natureza humana, pecaminosa.

O conselho de Ellen White é que “nenhuma vez se deve permitir que o sentimento assuma o domínio do juízo” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, pág. 18).


Este texto foi publicado pela Revista Adventista

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