Culto para Deus ou Para Nós?

por: Cláudio Hirle

O culto a Deus deve conjugar alegria e reverência

Dentre os temas mais controversos na atual conjuntura da igreja, o debate sobre o estilo de música a ser usado na adoração talvez encabece a lista. Esta discussão tem dividido muitas igrejas. O departamento de música de algumas de nossas congregações tem se transformado num “departamento de guerra”. É impressionante como facilmente as pessoas se aborrecem quando se discute gosto musical. Qualquer crítica à forma da adoração das pessoas é encarada como ofensa pessoal.

Todos estão cientes das mudanças ocorridas no mundo. A música das igrejas também sofre transformações. Pentecostais e carismáticos têm experimentado “reavivamentos”, atribuídos em parte a essa nova liturgia. A igreja Adventista naturalmente também experimenta mudanças nesse campo. Mas, até que ponto essas mudanças são pautadas pelo “assim diz o Senhor”?

Não se pode negar a complexidade do assunto. Há vários fatores recebendo consideração, tais como a cultura e a preferência pessoal. Mas, seria seguro usar estes ou outros, como fatores determinantes de nossa forma litúrgica?

Frente ao labirinto de opiniões sobre o tema em discussão, precisamos – livres de quaisquer idéias pré-concebidas – recorrer à segura fonte da revelação divina. Trataremos, portanto, de identificar aqui algumas características básicas do culto em duas balizas seguras: a Bíblia e o Espírito de Profecia.

Em primeiro lugar é preciso estar seguro de que a adoração esteja sendo regida pela verdade da Palavra e não pelo impulso humano (João 4:23, 17:17). A liturgia bíblica é teocêntrica e não antropocêntrica (Apocalipse 14:7). É dirigida a Deus. Nela não há espaço para a glória do homem, pois Deus é o alvo, o objeto exclusivo da adoração (Mateus 4:10). Deve-se portanto, destina-la mais ao deleite de Deus do que do homem. No culto bíblico, Deus é a audiência primária.

Outro aspecto importante do culto é que ele pode tocar a emoção do adorador, mas deve privilegiar a razão (Romanos 12:1). Se, por um lado, não se pode eliminar o lugar da emoção, por outro, se deve mantê-la em equilíbrio, a fim de não se obstruir o canal através do qual Deus Se comunica com o homem: a mente.

O culto deve ainda ter um caráter espiritual a fim de proporcionar verdadeira comunhão com Deus (João 4:24), o que significa que não deve ficar no extremo da formalidade nem no extremo da teatralidade.

Também o culto precisa ser caracterizado pela alegria (Salmo 32:11, 122:1), mantendo-se um clima dinâmico e envolvente. Porém, jamais se deve divorciar a alegria da reverência, da decência e da ordem (Eclesiastes 5:1 e 2, I Coríntios 14:40). A alegria, no contexto do culto bíblico, é mais um estado de coração e da mente, do que uma sensação de prazer conjugada de movimentos físicos.

O culto alegre, espiritual, racional, regido pela verdade da Palavra e que tem a Deus como centro nunca deixa o adorador como está. Ele transforma, exerce um poder regenerador e renovador (Romanos 12:2).

O Espírito de Profecia, que é também a voz de Deus para o Seu povo nos últimos dias, cumpre, entre outros papéis, o de “corrigir erros capciosos” (Mensagens Escolhidas, vol.3 pág. 32). Portanto, fazemos bem ao nos inteirarmos de suas instruções e advertências sobre o assunto em questão.

Ellen White adverte-nos quanto à existência de “demasiada formalidade em nossos serviços religiosos” (Testemunhos Seletos vol. 2, pág, 111). “Nossas reuniões devem oferecer o maior interesse possível.” O “culto deve ser interessante e atraente, não se permitindo que degenere em formalidade insípida” (Ibdem, págs. 251 e 252)

Por outro lado, num capítulo dedicado ao comportamento adequado na Casa de Deus, ela fala de “uma grande mudança não para melhor, mas para pior, nos hábitos e costumes do povo em relação ao culto religioso” (Ibdem, pág. 193). Então ela aponta esta mudança, afirmando que “a reverência que o povo antigamente revelava para com o santuário onde se encontrava com Deus, em serviço santo, quase deixou de existir completamente” (Ibdem, pág. 193).

Em seguida, assegura que “Deus mesmo deu instruções para o Seu culto, elevando-o acima de tudo o que é terreno”. Ao referir-se à igreja como “santuário da congregação”, orienta que “devem existir aí regulamentos quanto ao tempo, lugar e maneira do culto” (Ibdem). Apresenta ainda a necessidade de se fazer “distinção entre o que é sagrado e o que é profano” como uma condição “para que os homens possam verdadeiramente glorificar a Deus”(Ibdem, págs.193 e 194).

Em outra ocasião ela afirma que “tudo que de algum modo está ligado com o culto religioso deve ser elevado, solene e impressivo” (Mensagens Escolhidas, vol. 3, pág. 333).

Ao se confrontar com um problema de natureza litúrgica em seus dias, na Associação de Indiana, Ellen White previu uma crise similar àquela para “imediatamente antes da terminação da graça”. Usando uma linguagem escatológica ela diz: “Demonstrar-se-á tudo quanto é estranho. Haverá gritos com tambores, música e dança”. Na mesma página ela afirma que “a verdade para este tempo não necessita nada dessa espécie em sua obra de converter almas? (Ibdem, pág. 36).

Referindo-se então especificamente à música usada em Indiana e que voltaria a ser usada mais tarde, ela alerta: “Satanás opera entre a algazarra e confusão de tal música… Ele torna seu efeito qual venenoso aguilhão da serpente. Estas coisas que aconteceram no passado hão de ocorrer no futuro. Satanás fará da música um laço pela maneira por que é dirigida”. Em seguida, deixa-nos um desafio: “Deus convida Seu povo, que tem a luz diante de si na Palavra e nos Testemunhos, a ler e considerar, e dar ouvidos. Instruções claras e definidas tem sido dadas a fim de todos entenderem? (Ibdem, págs. 37 e 38).

Diante destas orientações inspiradas, constatamos que ninguém é deixado no escuro quanto às características do verdadeiro culto a Deus. O Senhor revelou quais seriam as tendências e deixou Suas instruções. Ninguém precisa errar, a menos que queira.

É sabido que o culto bíblico é o culto da mente e que Satanás quer o culto do corpo, o culto das sensações. Ele desenvolveu uma liturgia que libera o corpo e obscurece a mente, pois sabe que, em perfeito juízo, a mente humana jamais o servirá.

O que fazer diante das mudanças litúrgicas que estão acontecendo hoje? Os adventistas devem deixar que a cultura ou a preferência pessoal moldem o culto sem nenhuma reflexão teológica? A exemplo dos pentecostais e carismáticos, devem os adventistas ignorar a distinção entre o sagrado do profano? Trocar a verdade pela sensação e a santidade pela alegria irreverente? Ou devem ser sábios em discernir os fatos à luz das advertências inspiradas da Bíblia e do Espírito de Profecia? Devemos pensar nisso, e tomar atitudes bem definidas em nossas igrejas.


Cláudio Hirle é pastor adventista, atuando em Belo Horizonte – MG


Fonte: Este artigo foi publicado na Revista Adventista de Agosto de 2003