Colocando a Música em Seu Devido Lugar

por: Jorge Luis Jesuino

Sou muitas vezes, acusado de excluir a música do contexto de adoração congregacional com meus estudos, fato que não é verdade. A questão é que não dou o lugar de destaque na vida cotidiana de nossos ministérios, para a musicalidade. Creio realmente que existam elementos essenciais que devam ser mantidos e até exercitados dentro de nossos grupos, entre eles a música. A música não é o de maior importância, muito menos o de menor.

“Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o SENHOR não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração.” (1SM 16:7).

Deus deixa claro, com a consagração de Davi ao cargo de Rei de Israel, por onde começa seu julgamento e, principalmente, por onde escolhe as pessoas para Seu ministério. O problema é que muitas vezes esquecemos que o ministério é dEle, e que é somente por Ele e para Ele que fazemos as coisas. É por isso que toda vez que usarmos nossos dons no ministério que Ele nos deu, devemos fazer o melhor que pudermos… e isso também inclui a música.

Antes que você queira descobrir onde moro, para vir me apedrejar, deixe-me dizer algo que aprendi com Rory Noland (coração do artista) que é a ênfase absoluta, não só desse estudo, como do que realmente acredito para um ministério musical: “Enquanto muitas de nossas expectativas e esperanças são de Perfeição Artísticas, isto pode, por sua vez, ser a coisa mais distante do ponto de vista de Deus.”

Todos temos consciência que devemos entregar nossas expectativas a Deus e mudá-las para aquilo que Ele espera de nós. O que gostamos de esquecer, é que Ele está procurando “verdadeiros adoradores” que o auxiliem (assim como a Seus missionários) na tarefa de evangelismo pessoal, tanto quanto na adoração congregacional do seu povo.

Deus se importa com todos os detalhes de nossas iniciativas artísticas, isso é fato não questionável. Mas Ele também está envolvido com a salvação de almas, tratamento de caráter e santificação do povo que escolheu, assim como nós. O problema é que, nós Ministros Musicais, não queremos assumir toda nossa parcela de responsabilidade no ministério de Cristo. Temos a pretensão de achar que somente executando nossas músicas, com toda a musicalidade que conseguirmos aprender, será o suficiente para sermos chamados de Levitas ou de Ministros Musicais.

A igreja de Cristo hoje, precisa desesperadamente de pessoas que estejam dispostas a colocarem sua música e dom a disposição de seu ministério global. Não coagindo ou massacrando o povo com suas canções, mas confiando que à vontade dEle será feita, e não nossas altas expectativas, centradas em nós mesmos e em nossas músicas, serão correspondidas. Precisamos de músicas que auxiliem a missão da igreja de cristo (Salvação & Santificação), elas devem nos trazer a mente uma realidade diferente, mas condizente com a palavra de Deus e nos direcionar a Cristo.

Então o que é mais importante do ponto de vista de Deus: Que nossos esforços musicais se desenvolvam perfeitamente, ou, que o nome dEle seja louvado e as pessoas perdidas se convertam através de nosso Ministério Musical? Creio ser a hora certa para dizer que, quando se trata de música, equilíbrio é fundamental em nossos ministérios, pois ter uma música de excelente qualidade, baseada nos conceitos corretos da Adoração, é um dos melhores mecanismos de evangelismo e santificação que podemos contar.

O problema é que, quando olho para a música cristã nos dias de hoje, encontro muitos títulos e pouca adoração. Vivemos numa época em que o Melhor & Maior é altamente difundido em nossa mídia evangélica. Não vejo problema algum em ganhar reconhecimento por seu esforço musical, o ponto a ser lembrado; o problema é não deixarmos que isso se torne o combustível ministerial ou alvo absoluto de nossas músicas, pois assim, retiraremos o lugar de Deus.

Nossa motivação não deve ser o disco de ouro, mas sim ver as pessoas sendo convertidas em verdadeiros adoradores. Nossas músicas precisam se libertar da musicalidade massacrante que as colocamos nos últimos anos. Devemos incluir algo que raramente passa pela cabeça de nossos músicos profissionais, mas que infelizmente já esta sendo muito mal utilizado por uma mídia altamente comercial e hipócrita, que teima em se intitular Cristã.

Um comercial, numa rádio cristã, me chamou a atenção na semana passada, ele disse: “Se você comprar este CD, a unção da (fulana de tal) vai tomar sua vida”. Nossas gravadoras cristãs agora querem vender a presença de Deus (UNÇÃO) dentro de caixas de CD, como se isso fosse comprável. Limitam Deus e seu Espírito a uma caixinha e algumas músicas, e principalmente o restringem a uma só pessoa.

Nos dias dos discípulos também tínhamos este pensamento pecaminoso de: “compre uma unção, tenha a atitude correta, e ganhe um ministério”. Em At 8:18-21 lemos: “E Simão, vendo que pela imposição das mãos dos apóstolos era dado o Espírito Santo, lhes ofereceu dinheiro, dizendo: Dê-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo. Mas disse-lhe Pedro: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus.” Sabe o que considero incrível? É que sempre que falamos de ministério musical, por mais de andemos em nossos conceitos e teologias, discorreremos de algo chamado: CORAÇÃO. Descobriremos que é realmente o interior que move e molda nosso exterior.

Ministros Musicais devem, assim como Pedro, rejeitar essa idéia pecaminosa de compra e venda de “unção”, mas seguir o conselho de Cristo que nos manda buscar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente o caminho que Ele traçou para nós e nossas músicas. E além de tudo isso, buscar a excelência musical que nossos ministérios necessitam. Nunca devemos colocar o dinheiro ou fama nesta lista.

A fama e o dinheiro, se não colocados de uma forma correta, trazem algo que realmente considero muito perigoso. Fazem com que as pessoas não busquem a Deus, mas sim os “separados” ou “superiores” que existem por aí. Nós evangélicos sempre acusamos os católicos de idolatria, e os retiramos de qualquer referência cristã atual. Mas o que não notamos é que temos muitas vezes as mesmas condutas que eles, sendo que a única diferença, é que nós evangélicos “canonizamos” pessoas vivas, principalmente os músicos e ministros que admiramos.

Temos uma “teologia” dentro de nossos ministérios musicais de que apenas as pessoas que são consideradas boas musicalmente, podem conduzir a adoração congregacional. Nos esquecemos com imensa facilidade, que música se aprende com bons professores e com um pouco de força de vontade, e que isso é responsabilidade puramente pessoal. Mas adoração verdadeira envolve caráter e isso não se aprende da noite para o dia, nem se compra na feira como um produto transferível.

Temos, muitas vezes, a pretensão de querer agradar a Deus com nossas músicas. Buscamos em Seus olhos, admiração por nossas técnicas bem elaboradas e canções bem produzidas. Com isso, muitos de nós, decoramos o único versículo que realmente nos importa: “Cantai-lhe um cântico novo; tocai bem e com júbilo.” (SL 33:3). Note que temos o “tocar bem” no meio do “novo cântico” e do “júbilo”, e isso não é fruto do acaso, mas a questão aqui, é que o salmista nos ensina o motivo disso, já no versículo 4 do mesmo capítulo: “Porque a palavra do SENHOR é reta, e todas as suas obras são fiéis.”

Colocar a música em seu devido lugar, é incluir um objetivo na execução da mesma. Nosso objetivo, como ministros musicais, deve ser: Deus e seu ministério, a Igreja e sua missão e as Pessoas e sua adoração. Não devemos nos esquecer disso, devemos incluir a música nesse processo, ela deve servir a missão de cristo e de sua igreja, nunca o inverso.

Por mais que nos preparemos, nunca poderemos controlar se vamos atuar bem ou como as pessoas irão responder a nossa arte. Mas podemos controlar nossas motivações e o quanto estamos dispostos a ministrar às necessidades das pessoas. Devemos, simplesmente, fazer nosso melhor (musicalmente ou não) e confiar em Deus para os resultados que Ele quer se concretizem. Porque o resultado final de tudo que fizermos ministerialmente é de responsabilidade dEle. Nossa tarefa é cooperar com o processo. Colocamos muita pressão sobre nós mesmos para sermos perfeitos artisticamente (o produto final), enquanto Deus está mais preocupado com o processo (que caminhemos com Ele).

Por isso, temos que ter na MÚSICA nosso ministério, em Deus nossa fonte de inspiração e nas pessoas nossa missão. Se incluirmos todo esse processo em nossas composições, então elas estarão no lugar de onde nunca deviam ter saído.

Até a próxima…

Jesuino
Projeto Ágape – Vila Mariana/SP