Baratas Adoradoras

por: Adrian Theodor

“Tu me favoreces muito, senhor meu, pois me consolaste, e falaste ao coração de tua serva, não sendo eu nem ainda como uma das tuas servas” – Rute 2:13.

A questão precípua é a massificação de nossos cultos, transformados em mais um espetáculo cultural. Ir à igreja hoje é como ir ao teatro, ou ao cinema, ou ligar a televisão, ou mesmo dar uma lida em um livro. É mais um dos espetáculos oferecidos às “baratas” (leia-se pessoas, enfim) massificadas destituídas de senso crítico. Entretanto, como estamos falando de religião e teologia, uma massa destituída de um discernimento aprimorado de crítica teológica. Quando o assunto é “musica na igreja”, as dúvidas são sobre a bateria ou a dança e não acerca do comportamento em si. O problema é, ao cabo, o próprio ato de perguntar – que substitui o trabalho (considerado exaustivo) da pesquisa apurada. Ao invés disso, as pessoas medem opiniões, pontos de vista e acompanham debates; todavia não são “formadoras de opinião”, incapazes que são de tomarem e, com acurácia, minúcia e uma pitada de suor, formarem um conceito por e para si próprias.

Deparo-me estatelado com os serviços de culto nas igrejas – adventistas, católicas, protestantes, evangélicas, e tantas outras – os quais em nada se diferenciam de um grande show de rock, uma apresentação de ópera; ou uma exposição de arte, um filme e tantos dos outros denominados eventos culturais. O culto é hodiernamente mais um elemento desta indústria cultural, cunhada por Adorno e Horkheimer[1], mais um grande espetáculo para deleite das massas alheias e vazias de si mesmas. Assistir a um culto na igreja ou ver a cobertura da guerra no Iraque fazem parte da mesma intenção: é um vouyerismo, ora do sofrimento, ora do milagre… Portanto, ou seja, como em uma mega mostra de artes ou em um filme exibido em amplos cinemas, o indivíduo de dilui e se descaracteriza também em nossos cultos (cunhados como “cultos de adoração”).

Mesmo dizer que o culto hoje está centrado no homem e não em Deus é caminhar na superfície do problema. Se o próprio indivíduo está imerso em um processo de massificação e, por isso mesmo, destituído de crítica teológica e de real individuação, quem é esse homem para o qual o culto está centrado? Nem ele existe mais. O “homem” vai ao culto como centenas de outros “homens” vão: desapropriado de sua identidade, de crítica, de senso, de ação (ou reação). Então, ao ir à igreja, o “homem” sente-se de fato dono de sua liberdade – por estar demonstrando sua crença ao “mundo” – quando, na verdade, é conduzido como boi em pasto a um culto destinado não a ele como ser humano pensante, mas a todo um grupo nivelado e padronizado. E o culto então aborda a roupa que ele deve vestir para ser mais bem aceito, o nexo do Salmo 23 para o cotidiano do cristão, a possibilidade de a história de Rute e Boaz ser o tipo da história de Cristo e seu povo… Enfim, temas importantíssimos para a vida do adorador, porém tratados tecnicamente, ou seja, pregações generalizantes as quais não permitem ao ouvinte identificação com a Palavra; não possibilitando a este o encontro de sua mazela individual, de sua história, de sua salvação. Perde-se a particularização e a aplicação realmente pessoal e redentora. As partes dão lugar ao todo.

Sendo assim, não podemos nem ao menos culpar a música ou o culto superficiais dizendo que o adorador saiu da Casa de Deus “mais vazio do que entrou”. Como visto, o problema é mais profundo e o indivíduo sofre a impossibilidade de identificação com a mensagem proferida do púlpito. E o bloqueio se dá tanto por estar ali o “homem” como consumidor da palavra, quanto por estar desapropriado de sua individualidade (ou liberdade); ou ainda por não possuir a faculdade da crítica. Como consumidor, deseja aliviar um vazio imanente; contudo, como integrante indissociável (quase?) das massas, não é saciado. Da crítica – sua possível chave para o elucidar da questão – está alienado.

Não basta, portanto, eliminar um tipo indesejável de música ou sermão se não olharmos com cautela para esse problema estrutural de nossa degenerada sociedade que é a participação inevitável do ser em uma indústria cultural de consumo, massificação e barbarização. Procurar não “consumir” a adoração, falar ao coração do indivíduo, e trabalhar pela busca pessoal do conhecimento teológico, parecem ser os caminhos mais árduos tanto do pregador, quanto do adorador. Para que o primeiro não se torne mero títere midiático e o outro uma “barata” amorfa e vazia.


Notas:

1. Para os espíritos mais curiosos, ler, de Theodor Adorno e Max Horkheimer, o artigo: “A Indústria Cultural – O Iluminismo como mistificação das massas”. O artigo está presente em muitos livros de Adorno traduzidos para o português, dentre eles a edição da Paz e Terra: ADORNO, Theodor W., Indústria Cultural e Sociedade, São Paulo, Paz e Terra, 2002; (Coleção Leitura, 51). (voltar)