Adoração Contemporânea Versus Adoração Tradicional

por: Samuele Bacchiocchi

Nos últimos anos tenho pregado em algumas igrejas em que o serviço de cânticos foi realmente caótico. Há poucas semanas atrás, preguei em uma igreja na qual o líder do louvor manipulava os cânticos e os instrumentos de uma forma bastante habilidosa, de forma a levar a congregação a uma experiência extática. Durante o cântico, alguns membros ficavam levantando de seus assentos e gritando “Aleluia”, “Oh, Senhor” e “Louvado seja o Senhor”. Ao final do serviço de cânticos, que durou 45 minutos, o líder do louvor e aqueles que mais estiveram gritando estavam suados e exaustos. Pouco tempo depois que comecei a pregar, eles estavam dormindo.

Depois do culto, o pastor, que por contraste fala de forma calma e suave, me pediu desculpas pela balburdia de ruídos do serviço de cânticos. Ele me explicou que alguns membros vinham à igreja para experimentar um excitamento “espiritual” durante o serviço de cânticos. Se fossem destituídos de tal experiência, não viriam à igreja. Sorrindo, o pastor acrescentou: “Eu os deixo liberar sua emoções reprimidas durante o serviço de cânticos, de maneira que possam estar calmos e relaxados durante o meu sermão.” Muito provavelmente a estimulação física do serviço de cânticos os levava a cair em um sono “espiritual” durante o culto divino.

O desafio que muitos pastores enfrentam hoje é o de revitalizar a experiência de adoração de suas congregações, sem encorajar a balburdia de ruídos que acabei de descrever. É um desafio árduo, porque na maioria das congregações há duas orientações principais. Por um lado, há alguns membros que se opõe categoricamente a qualquer música contemporânea, algumas das quais podem contribuir positivamente para a experiência de adoração. Eles querem se restringir ao velho hinário. Por outro lado, existem aqueles que crêem que o hinário está obsoleto. Querem cantar canções contemporâneas, com um ritmo acentuado, que os faz sentir como se estivessem dançando.

Um Esclarecimento Necessário

É necessária aqui uma palavra de esclarecimento. Como expliquei em nosso estudo “O Cristão e a Música Rock”, nem toda música contemporânea deve ser rejeitada como “rock cristão”, impróprio para o louvor. Há muitas canções contemporâneas com música e letra apropriadas para a adoração a Deus.

Durante os últimos dez anos preguei em muitas igrejas adventistas onde pequenos grupos conduzem o “Serviço de Louvor”, usando hinos e canções contemporâneas que são normalmente projetadas em uma tela. Algumas dessas canções são triviais e superficiais na melodia e na letra, mas o mesmo também é verdade para alguns hinos. Posso suportar alguns corinhos triviais repetindo a mesma palavra ad nauseam, contanto que eles não sejam o único repertório do culto na igreja.

Porém, algumas das canções contemporâneas exalam genuína devoção, tal como “Como o cervo anseia pelas correntes das águas, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus!” Tanto a melodia quanto as palavras desta canção, expressam adequadamente o anelo espiritual de uma alma sincera. Assim, seria injusto rotular todas as canções contemporâneas como “rock”. Aliás, meu filho mais novo, Gianluca, me lembrou que a música “Bem-vindos ao Lar, Filhos” (N.T. – Trata-se da música “Welcome Home Children“, de Adrian King. Esta música será citada outras vezes.), que nós usamos numa gravação especial em vídeo alguns anos atrás intitulada “Sabbath in Songs“, é uma canção contemporânea. Isto demonstra que tenho usado música contemporânea em meu ministério sem nem me aperceber disto.

O critério não é se uma canção é velha ou contemporânea, mas sim se sua música, letra e a maneira de cantar estão em conformidade com o princípio bíblico da música de adoração. Ao contrário das concepções erradas prevalecentes, a Bíblia diferencia claramente a música usada para o entretenimento social e a música digna da adoração a Deus. Esta distinção vital é apresentada no Capítulo 7, do livro “O Cristão e a Música Rock”.

Para mim, foi surpreendente descobrir que nos tempos bíblicos, a música e instrumentos associados ao entretenimento social não eram permitidos no serviço de adoração do Templo, da sinagoga, e da igreja primitiva. Não há nenhuma dúvida de que o povo de Deus, nos tempos bíblicos, diferenciava claramente entre a música sacra usada para a adoração divina e a música secular empregada para o entretenimento social. Aqueles que negam este fato precisam fazer um pouco de lição de casa.

Algumas canções contemporâneas estão em conformidade com o princípio bíblico de música para adoração. Por exemplo, a canção mencionada anteriormente “Welcome Home Children“, tem uma melodia e letra que falam ao meu coração quando cantadas reverentemente. Atente às palavras: “Um grande dia está chegando / os portões do céu amplamente se abrirão, / e todos nós que amamos ao Senhor entraremos. / Unidos com nossos familiares / que em Jesus Cristo morreram / nossa vida eterna juntos começaremos.”

É difícil não se comover pela música e mensagem desta canção contemporânea. O ponto central destas experiências e comentários pessoais é que a questão não é se a música ou o sermão são contemporâneos ou tradicionais, mas se eles elevam as pessoas espiritualmente ou as estimulam fisicamente.

Da Adoração Intelectual para a Adoração Emocional

Durante o último século tem havido uma gradual alteração, de adorar a Deus através da proclamação da Sua Palavra para adorar a Deus através de sentimentos e experiências pessoais. Esta mudança de um estilo de adoração intelectual para um estilo de adoração emocional reflete a evolução histórica da compreensão de Deus. Tracei este desenvolvimento no capítulo 2 do livro “O Cristão e a Música Rock”. Durante o decorrer da história cristã houve uma alteração gradual da compreensão transcendental de “Deus além de nós”, que prevaleceu durante o período medieval, para a concepção de imanente de “Deus por nós”, que foi enfatizada durante a Reforma no século XVI, e para a percepção de “Deus em nós”, popularizada do século XVII até a nossos dias.

A evolução histórica da adoração durante o curso da história cristã, passando de intelectual para emocional, ensina-nos a importância de mantermos uma compreensão correta de Deus e Sua revelação. Na Escritura, Deus revelou a Si próprio como sendo tanto transcendente quanto imanente, além de nós e dentro de nós. Estas duas dimensões da auto-revelação de Deus devem ser mantidas em seu equilíbrio apropriado, de forma a assegurar uma experiência religiosa e uma música na igreja que sejam saudáveis. Nos capítulos 6 e 7 do livro “O Cristão e a Música Rock”, examino mais detalhadamente como nossa teologia deve informar nossa experiência religiosa, especialmente nossa adoração na igreja. A forma como adoramos a Deus é o reflexo da nossa compreensão de Deus. O estilo de adoração carismática, emocional, reflete a alteração do conceito “Deus além de nós” para “Deus em nós”. O resultado desta alteração é que Deus é rebaixado ao nível humano, de modo que as pessoas possam interagir mais prontamente com Ele.

A mudança para uma adoração emocional a Deus é reconhecida até mesmo por produtores de Música Cristã Contemporânea (MCC). Em seu livro “At the Crossroad: An Insider’s Look at the Past, Present, and Future of Contemporary Christian Music“, Charlie Peacock, um artista premiado, compositor, e produtor de Música Cristã Contemporânea (MCC), reconhece que a troca de Deus pelo eu, que tem ocorrido na MCC, se deve em parte à influência carismática. Ele escreveu: “Enfatizando a obra e os dons do Espírito Santo, e especialmente o profetizar em revelação espontânea e o falar em línguas, o enfoque mudou do conhecimento de Deus através de Sua Palavra, para o conhecimento de Deus através da experiência. Isto, por sua vez, mudou o enfoque do pensamento para o sentimento, de forma que, para muitos crentes, sua experiência tornou-se a medida da verdade, tanto quanto a certeza da Palavra da Verdade…. Para alguns cristãos, o desejo por experiências carismáticas eclipsou gradualmente seu desejo em aprender de Deus pela Bíblia” (pág. 44) .

A Experiência Pentecostal “Deus em Nós”

A busca atual por uma experiência de adoração carismática, especialmente através da música, pode ser traçada até as primeiras músicas Pentecostais do século XIX, as quais, normalmente, ocupavam dois terços do culto de adoração. (Larry T. Duncan, “Music Among Early Pentecostals,” The Hymn 38 (Janeiro de 1987), p. 14.). A música era caracterizada pelas palmas, batidas com os pés, e a dança no espírito.

“O cantar intenso era, geralmente, acompanhado pelo dedilhado das guitarras, a batida rítmica de pandeiros e tambores, e o ressoar dos metais conforme os novos convertidos traziam seus instrumentos dos grupos de dança recém-abandonados para a casa de adoração”(Idem, p. 14) Coros repetitivos com melodias de origem secular, juntamente com drama e mímica, tudo isto era utilizado para produzir um excitamento emocional em lugar da compreensão intelectual das verdades bíblicas.

A Reunião Campal Adventista em Indiana

O uso de música alta, rítmica para causar um “clímax” emocional imediato de Deus, não era estranho ao adventismo primitivo, como Ronald Graybill documentou (Veja Ronald Graybill, Singing and Society: The Hymns of the Saturday-keeping Adventists, 1849-1863 (Berrein spring, MI, n. d.), p. 25). Uma manifestação incomum de tal experiência aconteceu em uma reunião campal, em Muncie, Indiana, dos dias 13 a 23 de setembro de 1900. Stephen Haskell, um escritor e líder da igreja adventista, descreve o que viu numa carta escrita a Ellen White, no dia 25 de setembro de 1900: “Está além da descrição… Há um grande poder que vai com o movimento que ali está… por causa da música que foi trazida para ser tocada na cerimônia. Eles têm um órgão, um contra-baixo, três violinos, duas flautas, três pandeiros, três trompas, e um grande tambor, e talvez outros instrumentos os quais não mencionei. . . Quando eles vão para o registro agudo, não se consegue ouvir uma palavra cantada pela congregação, nem ouvir qualquer coisa, a não ser os gritos agudos daqueles que estão meio insanos. Eu não acho que estou exagerando em nada. Eu nunca vi tal confusão em minha vida. Eu já presenciei cenas de fanatismo, mas nunca vi nada semelhante a isto”. (Stephen N. Haskell, Carta a Ellen White, 25 de setembro de 1900. Ellen G. White Research Center.)

Ellen White assumiu uma posição fortemente contrária a este estilo carismático promovido pela música. Ela escreveu: “O Espírito Santo nunca Se revela por tais métodos, em tal balbúrdia de ruído. Isso é uma invenção de Satanás para encobrir seus engenhosos métodos para anular o efeito da pura, sincera, elevadora, enobrecedora e santificante verdade para este tempo. É melhor nunca ter o culto do Senhor misturado com música do que usar instrumentos musicais para fazer a obra que, foi-me apresentado em janeiro último, seria introduzida em nossas reuniões campais… Uma balbúrdia de barulho choca os sentidos e perverte aquilo que, se devidamente dirigido, seria uma bênção…. Essas coisas que aconteceram no passado hão de ocorrer no futuro. Satanás fará da música um laço pela maneira por que é dirigida” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas (Washington, D. C., 1958), vol. 2, pp. 36-37.).

A advertência de Ellen White teve seu efeito desejado. A música instrumental alta e rítmica cessou nas igrejas adventistas. Somente em tempos recentes é que a música rock alta, sincopada, começou, novamente, a fazer seu aparecimento nas reuniões de jovens adventistas e em um número crescente de igrejas. Este desenvolvimento não é surpreendente, pois com iluminação profética Ellen White predisse no início do século que “Essas coisas que aconteceram no passado hão de ocorrer no futuro. Satanás fará da música um laço pela maneira por que é dirigida.”

Adoração Falsa e o Engano do Tempo do Fim

Como Adventistas do Sétimo Dia, cremos que vivemos hoje na contagem regressiva final do grande conflito entre a verdadeira e a falsa adoração, conforme descrito no livro do Apocalipse através do simbolismo de uma besta que promove a falsa adoração de Babilônia. Esta profecia apocalíptica visualiza a Babilônia antitípica guiando todas as nações a uma falsa adoração a Deus. (Apocalipse 13:16; 14:8; 18:3).

É importante lembrarmos que a imagem apocalíptica da falsa adoração promovida pela Babilônia em Apocalipse, deriva do capítulo histórico de Daniel 3, que descreve um evento de significância profética para o tempo do fim. Na Planície de Dura, todos os habitantes do império babilônico foram chamados para adorarem a estátua de ouro do rei Nabucodonosor. Uma fornalha ardente foi preparada para aqueles que se recusassem render homenagem à estátua de ouro. Daniel nos informa que “todo tipo de música” (Daniel 3:7, 10) foi usado para levar todas as classes de pessoas de todas as províncias do império a juntamente adorarem a estátua de ouro (Daniel 3:10).

Em Daniel 3, por duas vezes, há uma longa lista dos diferentes instrumentos musicais usados para produzir “todo tipo de música” (Daniel 3:7,10). Esta música eclética foi tocada para induzir as pessoas à adoração da imagem de ouro. Poderia ser que, assim como na Babilônia antiga, Satanás esteja hoje usando “todo tipo de música” para levar o mundo a uma falsa adoração no tempo do fim, da “besta e de sua imagem” (Apocalipse 14:9)? Poderia ser que um golpe de mestre Satânico escreveria canções gospel que contivessem elementos de todos os gostos de música: música folclórica, jazz, rock, discoteca, country-western, rap, calypso, etc? Poderia ser que muitos cristãos cheguem a amar a estes tipos de canções gospel, porque elas se parecem em muito com a música de Babilônia?

Os Adventistas, historicamente, identificaram Babilônia com o poder do papado que conduzirá o mundo em formas de adoração pervertidas. Embora reconhecendo o papel profético representado pelo papado, ao levar muitas pessoas a acreditarem no papel intercessório de Maria e dos santos, poderíamos nos perguntar se a adoração carismática inspirada pela música ritmada também terá um papel vital em promover a falsa adoração no tempo do fim!

Esta não seria a primeira vez na Bíblia que a música aparece conectada à falsa adoração. No pé do Monte Sinai a música e a dança estiveram envolvidas na adoração do bezerro de ouro (Êxodo 32:19). Na planície de Moabe, próximo à Terra Prometida, os israelitas foram “atraídos pela música e dança” para uma terrível apostasia (Números 25:1-2) (Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (Casa Publicadora Brasileira, 1960), pág. 479). Eles foram induzidos pela música a participarem na adoração pagã – algo que eles poderiam ter resistido sob outras circunstâncias.

O chamado das Três Mensagens Angélicas para sairmos da Babilônia espiritual, pela rejeição de sua falsa adoração, poderia muito bem incluir também a rejeição da adoração carismática artificial de Babilônia. Logo o mundo inteiro será ajuntado para o conflito final na antitípica planície apocalíptica de Dura e “todo tipo de música” será tocada para levar os habitantes da terra a “adorar a besta e sua imagem” (Apocalipse 14:9). É digno de nota que, no Apocalipse, o resultado do conflito envolva o silenciar dos instrumentos de música da Babilônia. “Com igual ímpeto será lançada Babilônia, a grande cidade, e nunca mais será achada. E em ti não se ouvirá mais o som de harpistas, de músicos, de flautistas e de trombeteiros.” (Apocalipse 18:21-22)

Aqueles que raciocinam de que não há nada de errado com a adoração carismática na igreja, podem estar se condicionando a aceitarem a falsa adoração promovida por Babilônia. Satanás tem suas próprias canções para promover a falsa adoração no tempo do fim. Será que, pela adoção da música de Babilônia, alguns perderão a chance de cantar o Novo Cântico de Moisés e do Cordeiro? Que esta pergunta possa ressoar em nossa consciência e nos desafiar a nos levantarmos pela verdade como os três dignos hebreus.


Samuele Bacchiocchi é Doutor e Professor aposentado de Teologia da Universidade Andrews